Desde a primeira vez que percebi as coisas funcionavam de outro jeito talvez já fosse tarde demais e já fosse o sétimo dia e o algum deus estivesse descansando depois de passar os seus seis mitológicos dias na superfície inóspita e sem sentido. A luz chegou ao último instante e eu percebi que as coisas que eu via em você não eram as mesmas que eu via antes e que as coisas que eu ouvia de você não eram as mesmas de antes, apesar de tudo supostamente permanecer da mesma forma. Na verdade, não, acho que não, mas loucuras sempre permaneceram definitivas demais e as incertezas sempre foram as mais indefiníveis e confiáveis possível. Enquanto eu seguia o movimento do mundo depois que você passava, eu percebia que até o mundo já não era o mesmo e que eu não era o mesmo e que todas as coisas que antes estavam no mesmo lugar, apesar de permanecerem, estavam reviradas e soterradas de tralhas e entulhos e idéias estranhas e fundações mal planejadas e maluquices e brainstorm com a dor de cabeça que só aparece às duas da manhã da quinta pra sexta porque ainda não chegou o final de semana.
Quando finalmente decidi falar alguma coisa as palavras pareceram complexas e inimagináveis e interrogações intermináveis apareciam entre todas as sílabas e as regras de pontuação desapareciam e conjugação desaparecia e versificação desaparecia e concordância não tinha importância e nem o instinto e nem os grunhidos tinham definição suficiente e eu voltava pro primeiro estágio, o estágio de só seguir os movimentos. Segui-los tão silenciosamente que o vácuo provocado entre as cordas vocais e os nervos que tilintavam cuidadosamente aumentava meu ritmo cardíaco e só me permitia umedecer a boca seca e secar as mãos suadas no jeans e estalar os dedos e ouvir o resto do mundo enquanto o algum deus estava ocupado demais descansando pra me dar atenção. E quando se fez luz a luz não era mais suficiente e faltava sangue nas extremidades, o que seria preocupante se eu precisasse de uma ereção. Mas eu não preciso de muita coisa, eu só preciso de uma delas. E não é de desespero.
Sabe, apesar de toda a mudança do contexto aleatório ao qual você constantemente se refere em seus textos, penso, talvez equivocadamente, que o essencial continua intacto. Sim, o sentimento é o essencial. A perfeição se atinge no in e não no out.
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