Talvez não fosse a mais indicada das refeições no cardápio, mas a torça de maçã e as xícaras de café à beira da estrada foram nutritivas e baratas o bastante pra encher a barriga de uma forma espetacular. Saiu do banheiro depois de escovar os dentes, com a mochila nas costas. Pagou, pegou um único cigarro com o dono, cantou a garçonete e lhe sorriu antes de sair. Fez alguns alongamentos rápidos. Apesar de não fumar acendeu unzinho e fez com que durasse o bastante. Sentou-se em sua Harley WLC, 1943 e calçou as luvas prestando atenção no ruído que o couro sintético fazia ao ser esticado. Última filada no cigarro antes de jogá-lo no chão. Girou a chave e deixou o motor roncar por alguns segundos. Colocou capacete e óculos e acenou para a garçonete que lhe assistia através da vitrine. Saiu.
Puxava um grande caderno de capa escura sempre que parava nos beirais das estradas. Ou em motéis, hotéis, pousadas, casas de conhecidos, lanchonetes e quaisquer outros lugares. A idéia original era a de um diário irrestrito, mas as páginas estavam preenchidas de histórias semi-desconexas, poemas esquecidos e rascunhos de qualquer coisa que chamasse sua atenção. Escrevia também com notas de viagem sobre bons lugares. Preenchera algumas páginas na lanchonete. Boa refeição, bom lugar. Rabisco do rosto da jovem que trabalhava lá. Mais tarde, cada vez que se deparasse com aquela página sorriria também. Assim como sorria para cada um dos outros rostos mal desenhados ali. Não havia Rota 66 no Brasil. Não faltavam, no entanto, estradas e vias e rotas que também levavam o nada ao lugar nenhum. Não havia um lugar de onde partir e nem aonde chegar.
Carregava uma semi-automática por dentro da jaqueta. Pura precaução, que no final das contas era paranóia. Surpreendentemente infundada. Apesar de importante o contato com o resto do mundo não era o principal motivo da incansável e interminável viagem. Aproximava-se, interagia, enxergava e sentia tudo ao seu redor à sua própria maneira. Mantinha as pessoas de sua vida próximas sem que entendessem o que significava aquela maneira tão estranha e aparentemente paradoxal de fazê-lo. Um belo dia largaria inclusive daquela velha moto amarela que chamava de Woodstock, batismo graças ao pássaro das tirinhas Peanuts. Apesar de descascada e de aparência incrivelmente antiga, era cuidada como uma continuação vital de seu próprio corpo. Através das estradas não poderia atravessar diretamente aos vales e florestas e rios e montanhas e o resto daquilo que sabia existir em um lugar próximo e distante de si. Um dia Woodstock encontraria seu próprio cachorro mudo e branco, afinal a companhia daquele lobo calado e solitário não era lá a melhor. Mas funcionava.
Os retângulos amarelos e tortos corriam por debaixo dos pneus e refletidos pelos óculos escuros. Acelerava nos trechos incrivelmente retilíneos e suaves de estrada, e recebia satisfeito o vento que lhe cortava o corpo. A cada pôr-do-sol e surgir-da-lua ouvia a mesma voz que sempre chamava por seu nome. Um nome que mais ninguém sabia. E até ouvi-lo pela primeira vez, nem mesmo ele sabia qual era. Jack London lhe dissera que aquele era o Chamado da Floresta. Mais cedo ou mais tarde não resistiria. Até lá buscava conhecer a si mesmo através de tudo, e fugia de determinadas verdades enquanto percorria as várias estradas. Ele que sairá da estrada pra conhecer e mapear outro caminho. Não sabia quando. Mas sabia que estava perto da próxima cidade. Mais xícaras de café e outra torta de outro sabor.
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