domingo, 13 de junho de 2010

A outra margem

A decisão fora tomada durante uma daquelas tempestades repentinas e completamente rotineiras. Dessas entoadas trovejantes e bufões de cascos de touro latejando no céu, e os não-sei-quantos milímetros d’água de sempre. Olhando as gotinhas de chuva descendo vertiginosamente pelo vidro do quarto, a fumaça do café quente ondulando ao redor do seu rosto, criando algum complexo-avulso fumacê, rebolando perto das bordas da janela. Passou por planejamento, claro. Talvez não-tanto-planejamento-quanto-necessário, mas que se danasse, decisão tomada, tudo na ponta do lápis. Vendeu algumas besteiras, reuniu o dinheiro que tinha guardado na gaveta de meias, no pote de biscoitos, na carteira, debaixo da cama, nas calças recém-saídas da máquina de lavar, cédulas molhadas e moedas sobreviventes. Regras de três e pesquisa rápida de preços.

Arrumou a máquina de bombeamento e os tanques com alguns amigos. Gastou todo o fundo com comida desidratada, panelinhas e potes (com os quais poderia recolher água da chuva) e livros em algum sebo. Recolheu o estrito e necessário em sua mochila, roupas de baixo, meias, muitas meias, agasalhos que aqueceriam, inclusive, uma serpente raquítica em pleno inverno ártico. Reuniu tudo em uma mochila de viagens, compacta. Depois de tudo, desfez, refez e finalmente estava pronta por desistência de eliminação de bagagem. E, pode-se dizer, estava um quilo mais pesada do que sua primeira leva. Botas térmicas, capas de chuva, um caderninho e três canetas, uma de cada cor. Rádio AM/FM, algumas pilhas.

Foi até um terraço qualquer. Não avisou ninguém, saiu do trabalho no horário normal, comeu o de sempre no café, no almoço, no jantar. Cumprimentou as mesmas pessoas de sempre, tomou a mesma condução de sempre, esperou o mesmo tempo no ponto de ônibus, ouviu as mesmas músicas nos fones de ouvido, caminhou o mesmo número exato de passos tortos, barra da calça dobrada e camisa meio desajeitada. Acendeu um cigarro, tragou profundamente, cerrou os olhos a ponto de cortar a lenha em serragem entreposta entre as pálpebras. Muniu-se do casaco do inverno passado, luvas de lã e tudo mais. Respirou fundo, fumou mais um e outro e último, afinal, cigarro. Voltou ao apartamento, fez café, muito café. Juntou tudo em duas garrafas térmicas grandes, café forte e preto.

Todos eles estavam amarrados no terraço, presos àquela estrutura esquisita e, tendenciosamente, aconchegante. Foram muitos, muitos, muitos balões. Em caixas, muitas delas, agora vazias, esgotou tudo que tinha em moedas e cédulas amassadas e prescritas e molhadas, em supermercados, mercearias, lojas especializadas. Com milhares de desenhos e milhares de cores e milhares de frases e de formatos e de tamanhos, todos preenchidos de gás hélio, subiu na suposta cesta de transporte, jogou a mochila adentro, cortou os cabos, ligou os ventiladores, reunidos todos de sua casa, quatro ao todo. Unidos numa bateria grande, empurraram a figura dístone do horizonte contra todo fluxo da cidade.

Longe dos limites urbanos, já de sol posto e mais agasalho, observou as luzes quase distantes e as gigantes minhocas cintilantes do tráfego. Tomou café fumegante, direto da garrafa térmica, deu de ombros, provavelmente numa tendência de falso-blasé. Mas achou melhor tomar por questão abanar os braços, acenar sutilmente, curvando o corpo para os lados. Apesar do tamanho e da estranheza de tantos milhares de balões de tantas cores e tamanhos e desenhos e frases e formatos, poucos deram atenção. E, pois que quando uma massa suficientemente grande desse por inconcebível e/ou diferente, já estava distante, ao menos, o suficiente.

Agora, atravessando as bordas da fronteira, recostou na borda contrária à dos ventiladores barulhentos e sua incrível semelhança a enxames crepusculares de zangões sexualmente desesperados e famintos. Repuxou a gola sobre os ombros e envolvendo o pescoço. Acomodou o gorro, agarrou a mochila, que estava jogada do outro canto. As câmeras filmavam em distância segura, finalmente, com atenção necessária. A certo momento, perdeu-se na névoa do céu, misturou-se nas nuvens e desapareceu do alcance de, inclusive, pássaros que aproveitariam a carona.

Curiosamente, um a um, ploft, ploft, ploft, ploft, todos os balões estouraram irremediável e rapidamente, num tipo de efeito orquestrado. Ploft, ploft, ploft, ploft, ploft, e chegavam às dezenas, às centenas, aos milhares. E, pois que já estava tão longe e tão alto, que nem mesmo de cair, pôde chegar ao chão, desaparecendo nas câmeras da estação de TV local, e roncando suavemente no casaco remoído e levantado até o queixo, sem notícias e sem nada mais, inclusive certeza de um destino cruel ou verdadeiramente surreal.

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