Tenho absoluta certeza, em minhas plenas e totais faculdades mentais (que se tome de nota, que estão – supostamente – saudáveis), de que me acham louco. Biruta, insano, lelé, maluco. Não por qualquer tipo de episódio esquizofrênico ou tendências a tiques absurdos ou auto-tortura. Não, não, nada disso. Mas é um fato comprovado por vias quase acadêmicas, de que acham isso de mim. E até por vezes, questionei minha própria credibilidade e sanidade em prol de questões pessoais, o que não vem exatamente ao caso. Ao menos nesse caso, por esse motivo, nessa circunstância, posso dizer que não sou maluco.
Tudo isso, na verdade, graças a um simples hábito, costume mesmo. Não bem de quando iniciou, mas já faz tempo. Desde menino me pego, em flagrante delito, falando sozinho. Mas não o falar de mera discussão, de conversa com o inimaginável ou com amigos imaginárias, situações adversas. Mas como o simples e total solitário de fazer propagar minha voz, reverberar mesmo, soar tamborezinhos, gongos, estalar, estalidos, estalagmites, estalactites. Estalagmites e estalactites, palavras as quais, depois de pronunciar corretamente, arrumava uma maneira estranha de importá-la a todas as conversas, sentenças e até mesmo interjeições.
Ainda era menino, muito menino, e as adorava, as palavras. De comemorar gol gritando estalagmite e estalactite no lugar de um sonoro “GOOOOOOOOL”, ou xingar ou elogiar ou chamar alguém por estalagmite e estalactite. De responder em provas orais. De transformar em verbos e conjugá-los em eu estalagmito, eu estalactito, tu estalagmitas, tu estalactitas, e assim por diante. E levar surras urrando estalactite e estalagmite no lugar de um choro comum e urros abafados de dor. Quando de namoricos, de casos miúdos, de chamá-las de minha querida estalagmite, estalactite, estalagmitezinha, estalactitezinha, etc. E, inclusive, de algumas vezes que me masturbei, ao gozar, gozava oralmente com uma aliviada estalagmite ou estalactite. Até que abandonei, aprendi novas palavras e nunca mais as abandonei, todas.
E, pois, que voltando ao assunto principal: a acusação de minha loucura (e minha explicação a isso). Perdi a companhia de familiares, perdi amizades, trabalhos e algumas garotas. Tudo isso sob a tal acusação de loucura. Mas não o sou, dentro dessas circunstâncias, não, não sou. Cresci, desenvolvi por meio desse hábito, a entonação correta da minha voz, o bom desenvolvimento das cordas vocais, a boa dicção, o uso correto, pausas e intensificações necessárias. Co-habilidades desde a projeção da voz, como o uso de sua potência máxima, ou ser ouvido e compreendido mesmo aos sussurros absurdamente baixos.
Vivi minha vida, em delongas, completamente afastado, rondando os cantos e deixado de lado. Era o último garoto a ser escolhido pelos times nos mais diversos jogos. Era o último da fila na escola, e, por mais, ainda sofria certo desprezo das professoras e professores. Não, não foi nada fácil. Mas nunca baixei minha cabeça diante de quaisquer situações, como quando um namoro de muito tempo acabou como por motivo principal o fato de que eu falo só. Empregos dos mais diversos, oportunidades das mais variadas. E nesse meio tempo, de espera, de passagem e de tudo mais, o que eu fazia era falar, falar, falar, algo que me restara e que, conseqüentemente, sempre me fizera bem.
Pois que me tornei exímio debatedor e apresentava trabalhos e seminários como ninguém. Formei-me bem e não perdi nenhuma matéria na faculdade, e, apesar da aversão por meu suposto problema, várias pessoas admiravam essa habilidade, sobre a qual, já cheguei ouvir de que era uma tremenda perda de tempo incutir em alguém, algo tão majestoso e ao mesmo tempo lhe imprimir uma loucura sem precedentes. Minha família achou que era trauma de infância, mas logo depois deixou a idéia de lado. Bem como me deixou de lado. Por bem, nunca que minha relação com minha família foi por lá essas coisas de boa. Mas nem de ruim. Sempre comedida, necessária e, posso dizer, ou melhor, podem todos da família, dizê-lo: um relacionamento normal. Seja lá o que um relacionamento normal signifique.
O fato é que, isso, meu, só meu, é tão especial, especialmente e incrivelmente e solenemente especial que, problemas de garganta me incutem certo tipo de luto. Mal saio de casa, e quando saio, é de preto, abafado em pensamentos, calado. E não, não sou louco. Pronto! Ouvi agorinha pouco, uma senhora me chamando de doido. Já pensou? O negócio é que ninguém entende como é a vida de um contista-narrador: impossível agradar todo mundo.
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