Por enquanto eu prefiro guardar um silêncio irremediável. E simplesmente fingir que tudo continua como sempre foi. A consciência só chegou minutos depois de já estar acordado. Olhos fixos naquele feixe de luz que descia pela fresta da persiana torta e mal fechada. Os grãozinhos de poeira flutuando e o corpo jogado na cama em posição de queda-do-décimo-oitavo-andar. Levantar, lavar o rosto, escovar os dentes e voltar pro quarto. Por enquanto a mudez é mais que suficiente. Sento no chão pra colocar os livros dentro da mochila, piso frio e o ventilador faz barulho de tempestade tropical. Encontro O Chamado da Floresta no meio dos cadernos do chão. Perturbador.
Café quente, a fumaça me cegando e a superfície escura queimando afavelmente a língua. Enterro tudo, fecho o zíper. Tomo banho, como alguma besteira e há tempo suficiente pra vadiar antes da aula. Mas não há tanto sentido assim. Mais tropeços que o normal pelo caminho e o controle difícil dos pés que querem continuar andando. O limite, por exemplo, é o ponto de ônibus. atravessar a rua, ou melhor, as ruas, é impensável. Existe um percurso chave, uma linha uma razão um dever a ser cumprido. Faltam roupas na mochila. Sobram reticências e páginas em branco. O Chamado da Floresta continua no meio dos cadernos. Ele realmente existe. e insiste.
Acabar caminhando na praia com as barras da calça puxadas até a altura dos tornozelos é uma boa opção. O vento continua como deixei da última vez, cheio de sal e de chamego. A água continua do mesmo jeito. Todo mundo se surpreende com o primeiro toque da água do mar na situação, quando avançam as ondinhas ou quando se avança nelas. É irremediável o efeito desconexo. E continuar em frente, a água cobrindo os pés, calcanhares, tornozelos, joelhos, cintura peito e a falta absoluta de chão. Andando, andando, andando. Talvez eu chegue ao Marrocos daqui pro mês que vem.
O problema é me importar em chegar atrasado à aula fedendo a peixe e encharcado de água do mar. Pior é chegar.
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