Trabalhava num escritório organizando inventários. E digitando cartilhas e repassando informações. O tipo de trabalho que a maioria das pessoas acha que não existe. Bateu ponto. Escada interditada, ótimo. Mais três pessoas no elevador. Arrumou a gravata. Subiria até o terceiro andar com o barulho sufocante das correntes. Primeiro andar. Duas pessoas saíram e três entraram. Segundo andar. Todos saíram. Músicas de fundo deprimentes. Terceiro andar. No caminho até o cubículo passou por alguns colegas, cumprimentou, sorriu o mais amarelo dos sorrisos e disfarçou da pior maneira possível a cara de cachorro morto. Foi até o filtro com a placa ADOTE SEU COPO e pegou um pra si. Escreveu o nome com dificuldade usando uma caneta pra retroprojetor.
Já na mesa, sentou-se e ligou o computador. Abriu a gaveta e tomou as aspirinas estrategicamente posicionadas desde sexta à noite. Já havia uma pilha de fichários e requerimentos de várias cores diferentes, variando de verde até vermelho por departamento e por número no setor e grau de importância. Dez fichários, oito cores e nove números de múltiplos dígitos. Embrulho no estômago. É só mais um dia de trabalho. Concentrou-se por algum tempo no requerimento mais urgente, os dedos batendo rápido nas teclas e a vontade de botar tudo pra fora. Terminado. Afrouxou a gravata e saiu em direção ao banheiro. Final do corredor, à direita. Olhou-se no espelho.
Puxou as mangas da camisa e foi até o vaso pra vomitar. Se tivesse sorte não encontraria um cagalhão boiando. Levantou a tampa, sem cagalhões, all clear, vomitou. Era de se esperar. Fechou a tampa e deu descarga. Lavou as mãos e o rosto. Voltou à mesa, pegou a escova e pasta. Bochechou, cuspiu, escovou os dentes e voltou ao trabalho. Arrumou a gravata, ajeitou as mangas e guardou tudo. A fome apunhalava feito filha da puta, bem na base das costelas. Tomou mais dois comprimidos. Deu cabo dos outros fichários na hora exata. As tripas imploravam. misericórdia. Guardou a gravata na gaveta e puxou mangas pra cima mais uma vez. Elevador cheio, convidaram pra comer num lugar qualquer. Inventou uma porcaria indiferente e se livrou. Bateu o ponto. Precisava muito comer. Misericórdia.
Atravessou a rua puxando a camisa pra fora da calça. Lanchonete cheia. E era o normal daquele horário. A experiência lhe favorecia. Procurou pela tabela de preços. Sanduíche grande e café pra viagem. Separou o dinheiro exato e contou a uma das funcionárias que estava com pressa, que era uma emergência. Disse que tinha o dinheiro contado, tudo certinho. Abriu a mão apontando pras notas amassadas e pras moedas. Sete minutos depois estava mastigando o último pedaço e tomando o último gole sentado num banco em frente à praia. Tirou os sapatos e as meias, dobrou a barra da calça e saiu em direção ao mar. A areia fininha roçava macia nos pés. O barulho do mar era mais alto do que tudo, que os carros passando e que os gritos do futebol e do vôlei. Mais alto que as crianças que gritavam. Um cigarro não cairia mal. Continuasse daquele jeito poderia encabeçar num vício. Lembrou de Oswald de Andrade. Me dá um cigarro? sentiu algo roçando nos tornozelos.
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