sexta-feira, 26 de novembro de 2010

London, London e As Pegadas na Areia - reescrito (parte 2/fim)

Mesmo com toda aquela merda estirada junto de todo mundo, apesar das pontas de cigarro, das garrafas fazias, da seda rasgada, era uma imagem doce. Um mar de inocência sobre os corpos estirados pelo chão do quarto e sobre os corpos espalhados pelo resto da casa. O sol dançava porentre as frestas da persiana e figuras engraçadas e cheias de luz rebolavam no chão. A cabeça doía menos. Todos eram anjos. Anjos nus e deitados nas mais diversas posições. As coxas e as nádegas e os peitos e as cabeças e os cabelos e os braços e os abraços e as pernas, algumas abertas e entreabertas e fechadas, e os entrelaces e os pêlos e as camisas e as camisinhas e os olhos, fechados e entreabertos, e as bocas e as narinas e as unhas e os dedos. Eram todos anjos.


Levantou-se. Estava tonto. Meio tonto. Muito tonto. Firmou os pés e as pernas e caminhou pelo chão coberto das penas dos anjos que dormiam na penumbra imunda. Depois de muitos quilômetros percorridos atravessou a porta e desviando por mais corpos chegou ao corredor. Mais corpos, a cozinha. Pegou o último e único sobrevivente de todos os copos completamente estilhaçados. Caminhou até o filtro. Água gelada no botão da direita, um dois três quatro cinco copos. Beber desidrata pra caralho. Puxou um banco e colocou o copo na pia. Apoiou os braços nas pernas. Virou a palma da mão para si. Abriu, estendeu, olhou todas as rodovias que ligavam os pedacinhos de pele. Linhas, linhas, linhas.


Linha da vida. Era uma vida cheia de vícios, problemas, defeitos e trabalho de merda, reclamações e nenhum tipo de perspectiva decente. Fechou as mãos e encostou a cabeça nos punhos. A sensação era sempre a mesma. Reparou no barulho do mar. Firmou os pés e as pernas e caminhou até a porta. Virou a chave, abriu e ouviu com maior clareza. Não havia mais corpos de anjos jogados no chão. Só areia. E era tão cedo que o céu ainda não era azul. Pigarreou e cuspiu. Começou a cantar London, London com a pior voz do mundo. Foda-se a voz. I'm wandering round and round, nowhere to go. I'm lonely in London... Sentou na areia. Olhou pro mar e todas as nereidas penteavam seus longos cabelos longos. E viu Iemanjá e Poseidôn e alguns pescadores pequenininhos num barco verde e vermelho.


Virou a palma das mãos pra si. Não havia nada de errado. Havia tudo de errado. Abriu, estendeu, olhou todas as rodovias que ligavam os pedacinhos de pele. Leu em sua própria mão que talvez pudesse ser feliz. Mas mesmo assim, por via das dúvidas, resolveu tomar mais um copo d’água.

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