Como de praxe na época eu havia saído pra conversar e beber com dois amigos. Tive de dormir na casa de um deles. É engraçado perceber como parte dos meus textos começa depois de um surto alcoólico. Não, não. Não há nada em que me orgulhar disso, é uma constatação. Não me envergonho também. Fazia alguns minutos em que pensava sobre o alcoolismo literário. Era estranho. As pás do ventilador não se cansavam, meus olhos estavam vermelhos, meu corpo cansado. A língua pastosa. Em algum momento teria de levantar pra esvaziar a bexiga de todo o filtrado restando das cervejas e uísque e refrigerante e besteiras ditas e não-ditas da noite anterior. Ainda me restava algum tempo. Pela fresta da cortina eu via o sol desenhando o contorno do beiral da janela até o guarda-roupa. Dormir num colchão no chão é melhor que dormir numa cama propriamente dita. A grande merda é não poder fazê-lo sempre. Malditos ácaros. Será que nem mesmo colchões especiais escapam disso?
Esfreguei os olhos. O ventilador não cansa. Levantei sorrateiramente pra mijar. A porta não rangeu. Ressaca ferrada, pra mim, só em situações absurdas. O líqüido quente descendo e borbulhando e espumando e resolvendo todos os problemas do mundo naquele momento. Pelo menos os problemas de minha bexiga. Descarga. Pareciam que dez horas haviam passado desde que entrara no banheiro. Lavei as mãos, o rosto. Bochechar não adiantaria. Lavei o rosto mais uma vez, voltei pro quarto na ponta dos pés. Pés que me levaram de volta ao colchão no chão.
- Que horas são?
- Não sei.
- O relógio tá em cima da escrivaninha.
...
- Meio dia e...?
- Vai dormir. Nove e quarenta.
- Amém. Se quiser tem coca na geladeira.
O sangue voltava aos poucos às extremidades. Coca-cola. Deus, caso exista, há de abençoar minhas possíveis futuras úlceras causadas pelo consumo de coca. O alívio instantâneo no paladar. Lavei parte da louça. Nunca me livro de minha neura de educação na casa de outras pessoas. O único copo sujo na pia, ironicamente, era o que eu acabara de usar. Fui até a janela, queimar os olhos. Putaqueopariu. Eu tinha e ainda tenho lá meus problemas com excesso de sol. É um grande problema quando se vive num lugar onde sol é fração mais-que-dominante dos dias. Não havia nuvens. Nem rastros nem traços. Não havia fumaça de avião. O céu estava completa e sobrenaturalmente azul. Não existe, em lugar algum, céu azul com o azul que existe nessa cidade. Tenho meus problemas de logística com ela, admito. Nenhum deles diz respeito ao céu. O pedaço mais azul do céu.
Alguns minutos se passaram. Um garoto de dez, onze anos apareceu acompanhado de uma mulher de uns trinta e poucos. perto dos quarenta.O garoto de sunga caqui e camisa branca manchada. Eu estava no primeiro andar. Deus deu atenção especial às mulheres. Não há todas, claro. Mas perdeu alguns longos dias em determinadas espécimes. A quase-quarentona exibia em conjunto de biquíni um corpo fenomenal. Não era um corpo os chamados por aí de perfeitos. Não na concepção comum. Era um corpo de mulher de verdade. Tinha suas marcas, suas celulites, suas gordurinhas salientes, suas rugas facilmente localizáveis. E, como em poucos casos, aquilo lhe garantia o tipo de beleza que é difícil de encontrar. O biquíni era amarelo forte. Graças ao banho no chuveiro próximo à piscina o tecido estava levemente transparente. Os bicos negros dos seios despontavam parcial e delicadamente. Deitou-se numa dessas cadeiras de sol. Olhei pra cima mais uma vez. O céu continua azul, não há risco.
Barulho grotesco. Putaqueopariu, o quê agora? Olhei pra baixo. O garoto havia tomado distância e se jogado de barriga na piscina, desgraçando a superfície d’água. A provável mãe continuava deitada. Sem preocupações, todo moleque faz isso. O pai apareceu com latas. Uma de refrigerante, duas de cerveja. Saco de salgadinho. Deitou ao lado da mulher, beijou-lhe rapidamente. Abriu a cerveja, tomou um gole e o gole infiltrou-se por sua garganta e a sensação de maciez espalhou-se pelos músculos. Primeiro os da face. Em seqüência pescoço, caixa torácica e barriga. A mulher fez o mesmo. Não havia mais ninguém no mundo. Todos os vizinhos faziam alguma coisa dentro de suas casas. Eu ouvia algumas pancadas no andar de cima, ou sexo ou uma surra. Ou os dois. Sentia cheiro de alguma coisa no fogo no apartamento ao lado. Poucos carros passavam na rua. Poucos pássaros nos fios.
A mulher arrumou a parte superior do biquíni. Não se preocupe, falei-lhe telepaticamente. Todo topless será bem vindo. Ela sorriu. Logo eu que não acredito em telepatia, logo eu que acredito também nas coisas sem sentido. Respirei fundo, fui até o banheiro. Lavei o rosto mais uma vez. Voltei até a cozinha pra beber água.
- Que horas são?
- Onze e meia. eu acho.
- Ok - com a garrafa de coca-cola na mão
Voltei pro beiral.
- Ressaca?
- Bem pouco. E você? – olhando pra baixo.
- Mais ou menos.
Repeti a mensagem telepática, ela sorriu mais uma vez. Logo eu que mal acredito no céu azul.
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