sexta-feira, 11 de março de 2011

The song remains the same - I

[continuação...]


Sempre gostei do Charlie Brown. E do Woodstock, ainda mais pelo nome. Quando era moleque fui gamado na garotinha ruiva. Não que eu não seja mais moleque, acho que só esqueceram de manter minha aparência do jeito que era. E nem que eu não seja mais gamado na garotinha ruiva, mas ela não é mais de papel. O pastel quente pra caralho, e claro que eu queimei o céu da boca por falta de atenção. Depois de terminar de comer e fumar o restante do maço, voltei pra casa pra pegar todas as contas e por em dia. Por sorte havia chegado minutos antes do banco abrir. Paguei tudo e chequei o saldo. Dava pra agüentar até o próximo pagamento. Saquei um pouco pra comprar mais cigarro e uma garrafa de uísque. Esqueci de comentar sobre o uísque. Fora o dia do mês que acordo de madrugada pra terminar o serviço, sempre bebo do copo que fica ao lado da cama, no criado mudo. Antes de dormir coloco uísque com água pra beber assim que acordo, como num ritual próprio pra começar o dia. E café só depois de mijar, fazer a barba, tomar banho, escovar os dentes e abrir as janelas.


Às vezes uma mulher acorda do meu lado. Quase sempre vai embora antes mesmo que eu termine o banho. Nesses dias acordo mais cedo e fico olhando seu corpo como uma paisagem distante de montanhas e escarpas, enquanto o sol e a poeira que escorrega pela janela ilumina todas as curvas como se caminhasse por toda superfície. Meus olhos se tornam cinzentos e tentam fazer de conta que eu posso ver outra pessoa ali. Ela acorda, abre os olhos, sorrio timidamente. Seus olhos opacos sorriem carinhosamente em retorno e nós dois nos separamos como estranhos. Fui até o mercado comprar ração de gato e o uísque, depois almocei perto de casa. Ganhei um charuto de um senhor de grandes sobrancelhas brancas que lia Kafka na mesa ao lado. ‘Gostei de você’. Nunca gostei de charutos. Larguei no criado mudo até ter coragem o suficiente de passar adiante pro síndico do prédio. Quando chove desisto de levantar por umas horas, tomo mais de um copo e acabo meio bêbado olhando pro teto esperando que alguma coisa aconteça. Divido o apartamento com um gato preto, que se aninha no meu peito quando eu durmo e me tira da cama cravando as unhas nas minhas costas quando não consigo levantar. Ainda não me disse seu nome, apesar de estar a alguns anos comigo. Só o chamo de gato. E em resposta ele me chama de humano. Voltei pra casa depois das duas e levei bronca por ter demorado tanto com a ração.


- Próxima vez mostre mais consideração.
- Eu trouxe, não trouxe?
- Duas horas atrasado.


Troquei a água e despejei o almoço na velha vasilha vermelha arranhada.


- Obrigado, humano – disse petulante.

 

[+]

Um comentário: