domingo, 20 de março de 2011

The song remains the same - IV

De olhos fechados ouvi barulho da chuva. Tateei ao lado da cama o copo no criado mudo e não achei nada. Nem copo, nem criado mudo. Não estava em casa. Sentei na beirada da cama com uma ressaca homérica. Estava de calça, camiseta e meias. A camisa estava numa cadeira e os tênis ao lado da cama. Caminhei com dificuldade até o que parecia ser o banheiro, lavei o rosto e bochechei um pouco do enxagüante bucal. Encarei minha cara de ressaca no espelho por algum tempo no meio das já conhecidas imperfeições. Não lembrava muita coisa. Voltei pro tal quarto, calcei os sapatos e decidi procurar pela dona da casa – os produtos no banheiro denunciaram que era uma dona. Ninguém respondia aos meus chamados, mesmo insistindo bastante. Vi um papel grande preso na geladeira, com letras garrafais.


Saí e volto depois das 11h.



Parei de ler e tirei o celular do bolso. Onze em ponto.


Se puder, me espera.


Joguei o bilhete no lixo e bebi um pouco d’água. Mentira. Bebi muita água, a boca estava completamente seca e eu sentia enormes dunas escaldantes na garganta. Puxei um cigarro amassado do fundo do bolso, acendi no fogão e fui até a janela. No caminho vi um mural com diversas fotos espalhadas, muitas pessoas. A única que estava em grande parte delas era uma garota de longos cabelos ruivos ondulados. Provavelmente pintados. Tinha vaga lembrança de uma garota com aquela descrição. Algo a respeito de um cigarro. Pra quem fuma tanto quanto eu, quase tudo diz respeito a um cigarro. Quanto mais eu me esforçava pra lembrar, mais a cabeça doía. Encostei na janela e fiquei olhando a chuva caindo, assobiando The Rain Song e tentando fazer círculos com a fumaça. Alguns saiam razoavelmente bem. Ouvi a porta fechando e alguém cantarolando, depois cantando bem baixinho, ‘It is to you, I give this tune, ain't so hard to recognize, these things are clear to all from time to time…’ Olhei pra trás e vi a garota da foto com algumas sacolas e fui ajudá-la, peguei algumas e a segui até a cozinha.


- Pode deixar aí.


Coloquei as sacolas na mesa e esperei que ela falasse alguma coisa.


- Dormiu bem?
- Uhum.
- Meu nome é Diana.


Apresentei-me e agradeci por tudo.


- Eu já sabia seu nome, conversamos muito ontem.
- Não lembro nada.
- Hahahaha mas eu lembro. Não precisa se assustar, não falou nada de tão constrangedor assim.
- É?
- Mais ou menos – falou rindo.


Almoçamos pizza fria, coca-cola e cigarros e conversamos sobre as coisas que eu não lembrava da noite anterior. Nos encontramos mais algumas vezes e um dia ela acabou se tornando a garota que acordava regularmente ao meu lado. Uma das vezes a vi dormindo nua com parte das costas cobertas pelo lençol, encolhida com a cabeça perto do joelho e as coxas grossas contraídas, uma das mãos cobrindo uma parte de um dos seios e o outro à mostra, a outra mão largada no interior de uma das coxas e tocando a panturrilha. A boca entreaberta e os dentes branquinhos aparecendo por entre os lábios vermelhos, o cabelo escorrendo do ombro ao colchão igual a um rio de sangue cheio de afluentes profundas e impossíveis de se navegar. Não era mais uma montanha perdida no meio de um horizonte estranho, apesar da luz e da poeira insistirem em descer devagar em sua direção. Tinha lá suas escarpas macias, claro, mas era idêntica a uma pintura sobre a qual eu escrevera há muito tempo, Danae, pintado por um simbolista austríaco chamado Gustave Klimt.

Um comentário:

  1. Pow cara, muito massa, adorei a sua maneira em particular de escrever, segue ai esse caminho ou hobby.
    Se puder da uma passada no meu blog.
    http://onhandd.blogspot.com

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