sábado, 19 de março de 2011

The song remains the same - III

Tentei não beber demais. Mas era uma questão de tempo, ou pelo menos de administrá-lo. Colocaram Parabelo, um álbum do Tom Zé e do Zé Miguel Wisnik, pra tocar e a noite desenrolou em madrugada e minha sobriedade pendia do alto da corda bamba. Todos haviam desistido da chegada da tal ‘amiga’. Menos eu, já que sequer pusera algum tipo de fé ou possibilidade de empenho caso ela chegasse. A grande sacada por trás da bebida pra um cara chato e introspectivo como eu é que ela torna todo o social mais aceitável. E toda a conversa se desenvolve incontrolavelmente, juntam-se mesas, surgem novos e velhos amigos, conhecidos, essas coisas. Um deles levou meu carro até a própria casa e eu acabei voltando de metrô, com uma garrafa de licor na mão, um cigarro preso na orelha e outro na boca, apagado. Não parei em casa. Sentei num banco três pontos antes pra beber e tentar acender o cigarro. Os bêbados e as crianças têm proteção e graça divina, era só esperar alguma alma caridosa passar com um isqueiro ou fósforos ou lança-chamas. Caminhei até um senhor com um violão que estava a uns dez metros de mim e coloquei uns trocados dentro do copo que estava ao seu lado. Ele sorriu e tocou algumas músicas pra mim. Dividimos licor por um tempo enquanto ele tocava e eu fumava meu cigarro apagado e o ouvia.


Quando terminamos a minha garrafa ele tirou um cantil de inox pequeno e voltamos a bebericar. Dessa vez vodka. A partir disso começamos a cantar juntos e havia quem desse dinheiro pros dois – e no final eu despejei tudo o que eu ganhara no copo dele. As portas abriram mais uma vez e mais algumas pessoas desceram. Ouvi passos se aproximando e puxei o comecinho de outra música, que meu fiel bardo-escudeiro tratou de acompanhar e cantar junto. Eu estava sentado no chão com as costas arqueadas e olhando pra baixo quando percebi os pares de pés e pernas donos dos passos, soltei fumaça imaginária e continuei cantando.


- Deixa eu te ajudar.


Click, click, click, click. E a ponta do meu cigarro amassado ficou vermelha e acendeu em brasa. Tsssss... Soltei fumaça real e olhei pra cima pra dar de cara com a boa samaritana. E então eu descobri que tinha olhado pra cima pra me deparar com meu limbo particular, dois olhos castanhos esverdeados me repartindo em milhões de pedaços.


- Posso? apontando pro cigarro na minha orelha.


Fiz que sim e ela o tirou de lá e colocou na boca, passou pro lado uma mecha do cabelo ruivo da frente do rosto e sorriu. Click, click. Tssss...

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