Deixa eu anotar um negócio na sua mão, preciso pra lembrar de um negócio.
Por que não anota nas costas da sua? (e ela riscando a palma da minha mão).
Não dá pra escrever na minha pele, acho que essa caneta me odeia.
Tá certo. Mas e se eu suar vai sair…
Tá muito frio pra você suar.
Verdade. É pra lembrar que tem alguma coisa anotada na minha mão quando?
Quando você me deixar na porta de casa.
Vou te deixar na porta de casa?
Vai.
Ri e concordei. Peguei outras pessoas em outros lugares e dirigi até o outro lado da cidade pra uma festinha dos conhecidos de alguém. Deixei todo mundo no tal apartamento, voltei pelo retorno, coloquei um pouco de gasolina no canto e filei um cigarro enquanto conversava com o frentista. Fumamos e conversamos sobre o preço da gasolina e depois sobre a pensão que ele tinha de pagar pra ex.
Olhei pro relógio e decidi voltar pro apartamento e como havia previsto tudo estava em ares de merda. Grupos espalhados falando baixo e bebericando vinho seco, ouvindo músicas terríveis e rodopiando arrastando os pés e os olhos pelo carpete mal colocado. Desci e fui andando até o posto, conversei mais com o frentista e filei outro cigarro, fumamos e conversamos mais um pouco. Comprei três garrafas de vinho barato e voltei pra ‘festa’. Sentei no sofá espaçoso e quase vazio, abri um dos vinhos com a chave de casa e empurrando a rolha com o dedo.
Fiquei olhando pras pessoas e suas manias bêbadas e suas narinas dilatando aos suspiros, a fumaça de baseado escapando pelos quartos, suas camisas feitas sob medida e os movimentos lentos que faziam, algumas, só algumas, ao ritmo das músicas. Desci mais uma vez e trouxe o frentista pra cima, que acabara de largar seu turno. Concordávamos que não era um bom lugar pra se estar, mas que o vinho barato era doce e que enquanto pudéssemos diferenciar os tipos cambaleando pela sala e pelos corredores, tudo estaria bem.
Montamos um ninho das almofadas verdes do lado do aparelho de som e conversamos esperando até que todos estivessem devidamente bêbados pra não ligar mais pra trilha sonora – como se mesmo sóbrios notassem quaisquer diferenças. Passei pra rádio e procurei uma estação escondida entre os traços finos, rodando o botão bem devagar e atentando à mínima variação de estática e ruído de fundo. For the dreams that came to you when so young, told of a life CARALHO, Nick Drake, dissemos em uníssono. Ficamos em silêncio por muito tempo ouvindo as músicas – era uma espécie de programa especial.
Num dos comerciais ele explicou que o pai dele, que havia morrido quando ele tinha dezesseis anos, adorava Nick Drake por culpa do avô, que venerava o cara e tinha fitas e o caralho a quatro. Achei a história o máximo, apesar de tão curta e simples. Ele listou as melhores músicas, na própria opinião, e eu fiz o mesmo. Secamos a segunda e a terceira garrafas de vinho e prometi que o levaria em casa. Fui até o banheiro, enfiei o dedo na garganta e vomitei parte do vinho.
Escapei por alguns minutos, dei volta pelo balcão da cozinha, que beirava a sala e os limites do carpete manchado, passei por uma das janelas e fui até a piscina onde outras pessoas da ‘festa’ conversavam e tremiam de frio ouvindo as próprias besteiras. Fiquei de cueca enrolei as duas meias na mão direita, onde a garota havia escrito sabia lá o quê. E me joguei na água gelada enquanto meu amigo vomitava um pouco no jardim. Prendi a respiração e fui até o outro lado da piscina com o impulso do mergulho e flexionando o corpo, fiz o caminho de volta a braçadas, saí, peguei as roupas e me sequei na toalha de rosto do banheiro. Vesti as calças e a camisa, mal abotoada, joguei os tênis no banco de trás do carro e levei meu amigo em casa, ambos cantarolando Winter is Gone bebadamente, embrenhando o carro pelas ruas do bairro onde ele morava.
Filei o último cigarro e tomei uma xícara de café antes de voltar pra festa. Abotoei corretamente a camisa, desamarrei as meias da mão, calcei e recoloquei o tênis nos pés. Olhei pra mão e vi uma mancha de tinta borrada. Merda. É a merda da vida. Desengatei o freio de mão e olhei pelo retrovisor antes de passar a primeira, pra ver o céu começando a clarear. Saturday sun, came early one morning in a sky so clear and blue, saturday sun. Dei a volta no final da rua, que não tinha saída, e fiz a descida de volta na banguela, atravessando o bairro inteiro cortando pelas ruas embaralhadas e inclinadas até uma das avenidas principais, passei a segunda, acelerei, passei a terceira e cortei a curva machucando os pneus na curva mais imperfeita de toda a madrugada. Saturday sun, came without warning so no-one knew what to do.
Voltei pro lugar da ‘festa’ pra ajudar a recolher os cacos de todo mundo que eu ainda ‘teria’ de levar pra casa. Carreguei alguns pro carro, deixei outros pra lá em suas camas, sofás e manchas de porra no carpete. Última parada, a última pessoa. Abri a mão.
Então foi isso que aconteceu?
Foi exatamente isso que aconteceu.
Sei.
Bom, seja lá o que estava escrito na mão, espero que você lembre o que era.
Ela sorriu seu sorriso de cabelo em meio rabo de cavalo, seu sorriso das mechas soltas ao redor do rosto, da parte da maquiagem borrada e seu sorriso de como eu quisesse entender, e cantou so sunday sat in the saturday sun bem baixinho. Desliguei, engatei o freio de mão e respirei fundo.
Melhor você esperar domingo chegar. Quer tomar um banho?
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