Como será que funciona?
Hm?
Como será que isso funciona?
Tomei um gole generoso de vodka no gargalo, algumas gotas caíram assim que eu afastei o vidro frio da boca morna e da garganta quente.
Quer dizer, um dia nada de realmente importante e grandioso vai ter alguma importância fodida e tudo vai acabar assim.
Sem mais nem menos?
Sem mais nem menos.
Ela tomou três goles curtos, limpou o canto da boca, respirou pausadamente e passou a garrafa de volta.
Como será que funciona?
Isso de existir, né?
É.
Talvez seja tudo uma viagem foda.
Como?
Uma viagem. Assim: antes as coisas que eu percebo que existem agora não existiam, pelo menos pra mim, pelo simples fato de que eu não as conhecia ou deixava tudo passar em branco.
Eu não existia.
Mais ou menos.
Mais ou menos?
É. Sabe quando a gente sabe que tem alguma coisa ali e não dá pra responder na lata?
Sei.
Meio que um lance de genialidade, porque essas respostas simples e óbvias são visíveis só pra quem é gênio. Como perceber que o detalhe mais simples torna numa pintura comum uma obra prima ferrada, é sacar o tempo chave de uma sinfonia, essas coisas.
Tomo dois goles curtos e limpo o canto da boca, cuspo no chão e a garganta contrai de leve e o sol aparece e parece que o fim do mundo, onde o mar cai no espaço, é cor-de-rosa.
E eu?
Não sou sequer inteligente. As coisas têm de cair no colo e com bilhete explicativo, de preferência bem claro e direto.
E será que é assim que funciona?
Não sei se é assim, mas onde eu moro tudo é feito de coisas assim.
A areia fazendo uns desenhos curvos e esquisitos no ar. O resultado parece como quando todas as nuvens estão fininhas e apontando pra um lugar só de um jeito meio torto. Que parece com a areia de novo. Só que molhada da beirada do mar no raso, desenhando os banquinhos de areia pequenininhos e vem aquela sensação curva e esquisita nos pés.
Onde você mora?
Você sabe onde eu moro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário