Como eu vivia metodicamente em relação às despesas conseguia manter tudo numa mesma média e pagar as contas, comer e comprar uma peça de roupa de vez em quando. Apesar de nunca dever aluguel ou qualquer outra coisa, não sobrava quase nada da grana pra comer bem ou pra sair pra tantos lugares e esbanjar o mínimo do possível. Sempre que podia comia os bandejões na faculdade (que quase sempre perdia por questão do horário) pra poder xerocar algum livro pra estudar. Graças ao ritmo da rotina acabei me demitindo do emprego e trancando algumas matérias pra não explodir. Os sábados, então, eram sagrados e se eu não arrumasse alguma garota pra voltar comigo pra casa, alguma garrafa voltaria comigo.
Por ter perdido o emprego mudei pra um apartamento num lugar perigoso e mais distante da faculdade – distância que eu compensava acordando razoavelmente mais cedo pra andar um bom pedaço do percurso só pra pegar o trem que parava duas quadras antes do campus. Passava mais tempo na faculdade pra pegar todas as refeições, aproveitava pra estudar na biblioteca e tomar porres na grama que engolia parte do meu corpo e escondia todas as minhas pretensões e mergulhava meu falso orgulho no verde molhado. Por estudar mais pras poucas matérias que eu pegava, acabei chamando atenção de alguns professores e acabei arrumando um estágio remunerado e voltar a morar no antigo apartamento, mas preferi continuar, mesmo assim, com a antiga rotina das longas caminhadas debaixo do sol. Perdi o aspecto de magreza e o branco maltratado da pele.
Acabei contratado na empresa onde estagiava, que depois de dois meses e meio se dividiu entre companhia de freelancers e redatores padrão. Recebi convite pra estagiar na agência de freelancer e deixei a proposta de molho por uns tempos. Trabalhei exaustivamente como redator e mal sobrevivia com o baixo salário e o tratamento fodido que a empresa dava aos empregados. Pedi demissão na segunda e, depois de pedir desculpas por ter demorado tanto pra responder ao convite, estagiei por seis meses com trabalho de revisão e de office boy até que me contratassem pra parte administrativa.
Nessa época achei um filhote de gato preto bem machucado jogado no terreno baldio ao lado do prédio onde eu morava. Levei ao veterinário e depois pra casa. Ele se manteve mudo, sem sequer um mínimo miado, por dois meses, até que em uma noite esqueci servir a ração. Suficiente pra que começasse a falar verborragicamente pra reclamar sobre os horários das refeições e o cheiro horrível dos meus sapatos e do meu hábito terrível de trocar as notas mais óbvias o possível na hora de tocar teclado. Demorei pra acostumar, claro. Ficou decidido, então, que ele não era mais ‘um bicho de estimação que morava comigo’, mas que era meu companheiro de apartamento. E que eu não deveria arrumar nenhum nome ridículo ou chamá-lo por apelidos bobos. Nunca me chamava pelo nome, mas de ‘você’ ou humano – sempre com um tom de desprezo amável na voz. Tendo o contrato de convivência firmado, ele não ligava pras garotas que eu levava pra casa ou pras vezes que eu caía de bêbado no chão e dormia até o dia seguinte. Desde que eu nunca esquecesse sua ração.
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