sábado, 18 de junho de 2011

Quando eu saí pra te encontrar

Subi devagar pelas escadas olhando pros degraus pra não errar os passos, e conforme me aproximava do andar certo ouvia um ruído cada vez mais alto que se transformou numa música que parecia estar debaixo d’água. Abri a porta do sétimo andar e encostei respirando forte na parede ao lado do elevador. Nada contra elevadores, mas escadas são boas o suficiente pra mim. Fui até o final do corredor como se estivesse mergulhando indefinidamente num lago escuro de superfície congelada, a música mais clara. Encostei o corpo, de lado, na porta. Senti as vibrações da madeira fria. Encostei o ouvido e ouvi Chain of Fools, Aretha Franklin. E sorri. A porta tá aberta.

Provavelmente ela me ouviu sorrindo, mesmo com I might be weak child, but I’ll give you strength tocando no mesmo instante. Virei a maçaneta, empurrei a porta e entrei no apartamento vazio. Vazio a não ser por um enorme colchão no meio da sala. E um notebook ligado a duas caixinhas de som, ligados à Aretha Franklin, todos ligados na tomada, com exceção de todas as luzes apagadas menos a do banheiro. Fechei a porta e passei a chave. Fui até a varanda e puxei a porta de correr, três carteiras de cigarro e uma caixa de fósforos sentados no canto oposto. Saio daqui a pouco do banho, acabei de entrar. Tá bom. Demorei um cigarro e meio até que ela saísse secando o cabelo e dissesse pra que eu entrasse.

Andou do quarto até o colchão, ajoelhou e pegou o celular ao lado de uma das caixinhas de som, foi até a varanda e conversou com alguém durante alguns minutos. Troquei de Aretha Franklin pra Billie Holiday, pura preferência. Deitei e fechei os olhos ouvindo These Foolish Things, braços debaixo da cabeça, como sempre, pernas semicruzadas e os pés roçando um no outro ao ritmo da música. A porta basculante abriu e fechou, ela deitou encostando o corpo na lateral do meu. Gostei do seu vestido. Acredita que foi um presente? Sério? Sério, minha irmã. Qual? Laura. A mais nova, né? Isso, você conheceu. Que graça… ela tá com quantos anos agora? Vai fazer nove. Cresceu muito? Esticou pra caralho. Vai ficar maior que você. Não sou alta, você que é baixinho. Billie’s Blues tocando.

Tive que colocar gasolina, você tem grana pra pagar sua entrada na festa? Tenho, mas que horas começa? Ah, já começou, mas não tem problema chegar depois, quer sair agora? Daqui a pouco, deixa acabar a música. Deixo. Ela fechou os olhos, encostou a cabeça no meu ombro e trespassou o braço até o outro ombro. Você fica bem de loira. e de vestido. Fico? Muito, mesmo eu preferindo você ruiva. Vou pintar de castanho escuro da próxima vez, que tal? Putz, não sei, não sei… Então me sugere uma cor. Vermelho. Vermelho não vale. Avermelhado então. Ela mordeu meu pescoço e riu. Castanho escuro e pronto, de acordo. Sou bem persuasiva. Olha… limpei a garganta e passei o braço pela cintura, obrigando-a a deitar com metade do corpo em cima de mim. Que foi? Tem um problema. Qual? Não vou mais pra festa. Por que não? Apontei pra uma das caixas de som, tocando Easy Living e cantei junto for you maybe I’m a fool, but it’s fun e segui até o final da estrofe, até que ela me interrompesse pra dizer que eu respondesse pela manhã.

Alguma coisa indefinida continuava tocando lá do fundo do lago de águas escuras e superfície congelada, as ondas por debaixo do gelo raspando suavemente. Quem se aproximasse de suas bordas e apertasse os olhos talvez enxergasse. Quem se aproximasse de suas bordas e fechasse os olhos talvez escutasse os peixes conspirando no fim do mundo.

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