terça-feira, 15 de março de 2011

Contra-luz

Ela atravessou a rua batendo os sapatos nos cantos dos paralelepípedos segurando um cigarro entre o canto dos dedos com a fumaça escapando pela parte interna do braço enquanto eu me desesperava tentando desviar o olhar. Não era uma tarefa fácil, ninguém sequer se deu ao trabalho de dizer que seria. Nem mesmo eu. Estava frio e meus calcanhares batiam um contra os outros enquanto eu rezava pra todos os deuses pra que alguma coisa realmente boa acontecesse. Claro que eu não consegui desviar o olhar e em determinado momento a situação ficou bem constrangedora. Não que eu realmente me importasse muito, mas calculando melhor todas as variáveis seria bem melhor que eu não a encarasse. É impossível pra uma mariposa de asas chamuscadas parar de se jogar contra a luz e se incendiar aos poucos na superfície da lâmpada. Acendi meu próprio cigarro só pra me encher de desespero e calma sem sentido.


Quando ela sumiu na multidão achei que seria reconfortante olhar pro copo vazio, sem me dar ao trabalho de enchê-lo. Vi o gargalo transparente de uma garrafa saindo de um saquinho de papel e enchendo meu copo.


- Tem fogo?


Não dava pra mostrar desinteresse. Saquei o isqueiro de novo enquanto ela protegia o cigarro do vento usando as mãos em concha. Click, click, click. Olhei pro fundo do isqueiro verde-transparente, sem fluído. Ah, não, não, não... não faz isso comigo, seu putinho. Não agora. Vi a ponta do cigarro dela encostando na ponta do meu. E eu nunca tinha visto aquilo dando certo, mas os deuses estavam ao meu lado – mais uma vez – e aquilo funcionou. Ela sorriu quando percebeu minha surpresa. Quem fuma muito tem esses dentes amarelados, mas aquele era um genuíno sorriso de dentes branquinhos e perfeitamente alinhados. Não agüentei e acabei corando, essas coisas não se controla. Ela puxou forte, colocou uma mão no meu ombro e estendeu a outra.


- Meu nome é Luz.


E minhas asas começaram a pegar fogo bem devagar.

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