Há uma ordem maluca em parte das coisas. E essa ordem maluca deve ser respeitada. Ou o universo come seu rabo e deixa pior do que os anéis de Saturno. Por isso você só limpa depois que evacua, e não o contrário. E, bem, existe uma ordem de pertencimento e adequação nas coisas, como por exemplo, fazer a barba. Não adianta você pegar pra um imbecil qualquer fazer sua barba. Ou ele será um açougueiro com uma navalha na mão, ou ele será um inútil que deixará milhões de tufos pelo caminho, ou você fará a descoberta da sua vida.
Conheci uma garota legal há uns tempos, descendente de italianos, a Ruth (e até então não havia conhecido nenhuma Ruth, novidade deveras). Conversamos um pouco, ela estagiava numa firma e eu ainda no começo da faculdade, saímos algumas vezes e graças ao Maria Antonieta da Sofia Coppola, acabei ganhando a garota. Ambos odiávamos, achávamos um lixo, etc., rolou a química no desprezo. Não cabe a mim explicar as mecânicas do desprezo, só louvá-lo incondicionalmente. Uma das vezes apareci com a barba mal feita pra caralho e acabei reclamando que, por pressa, paguei um barbeiro muito ruim. Química do desprezo mais uma vez. Conversamos mais sobre o lance de barbearia, forças universais e o desprezo por açougueiros e inúteis.
Por acaso meu avô é barbeiro.
Seu avô é barbeiro?
Meu avô é barbeiro.
E como funciona, como é, onde é, quanto é?
Funciona assim: você chega lá e pede pra fazer a barba.
Genial.
Né?
Incrível.
Então, é lá no centro e é três e cinqüenta.
Tá de sacanagem, três e cinqüenta?
Não tô, juro.
Caralho! Vou lá amanhã.
Espera crescer a barba antes.
Ai, verdade.
Cultivei uma boa quantidade de pêlo na cara pra saber se o senhorzinho era realmente bom. Ela não reclamava. Talvez até entendesse o que eu estava fazendo e sentisse que era um desafio necessário pra que eu ficasse numa boa. Acordei cedo com ela me ‘expulsando’ de casa porque tinha de ir pro estágio. Tomei uma ducha rápida e comi na rua. Decidi que era hora. A hora. Tirei o cartão do bolso e fui atrás do lugar. E apesar do meu péssimo senso de localização, foi fácil de encontrar. Era um lugar pequeno, simples, arrumado e com cara de barbearia. Justo. Entrei, cumprimentei, expliquei a situação e disse que era amigo da Ruth, que ela havia indicado – essas coisas. Seu Lino abriu o sorriso, mostrou onde sentar. Apresentou-se, preparou a espuma, abriu um estojinho e começou.
Virei freguês fiel. Deixava a barba crescer só pra aparecer por lá, e, conseqüentemente, acabamos amigos. Ele descobriu, obviamente, que eu estava saindo com a neta dele. No assunto era um assunto completamente evitado. Depois seu Lino queria saber como estávamos, se estava tudo bem, quanto tempo estávamos juntos, mil coisas. Passei a freqüentar não só pra fazer a barba. Levava revistas e algum outro material que ele precisava. Pagava as contas, saímos pra lanchar e conversávamos infinitamente. O melhor barbeiro do mundo, faltava isso naquela parede de pisos azul-claros, do lado dos certificados brasileiros e italianos. Torcia pro Palmeiras, claro, time de descendentes de italianos. Outro ponto de identificação, conversávamos sobre títulos antigos, possibilidades de novos, escalações, ídolos, histórias, tudo. No aniversário dele dei o DVD do Pernalonga, Barbeiro de Sevilha (pra ele, o melhor desenho já feito) e uma placa da escalação de 1951 do Palmeiras. E nunca recebi um abraço tão apertado desde então.
Um dia o pseudorelacionamento com a Ruth simplesmente acabou. Decidimos que estava tudo bem e que fora sexo casual era melhor deixar o resto pra lá. Dormi o final de semana no apartamento dela, pedimos pizza, sexo, porcarias na TV, conversamos, sexo, jogo de futebol e segunda-feira fui embora. Ela saiu pro estágio, e eu pra casa. Mantivemos (e mantemos) contato, embora nunca nos encontremos casualmente.
Entrei em época de final de período e avisei ao meu amigo que não iria lá por algum tempo, mas que depois compensaria. Numa segunda à noite recebi a notícia que seu Lino havia falecido, complicações de uma doença antiga – nada esclarecido. Fiquei arrasado, claro. Não fui nem no enterro, nem no funeral. Não gosto de enterros e nem de funerais. Visitei a família dele, dei minha condolências, o que a prática social necessita às vezes (mesmo de mim). Decidi deixar a barba crescer como um tipo de homenagem maluca pro seu Lino, até que completasse certo período – e a barba chegasse no tamanho máximo que eu deixava antes de passar pela barbearia.
Quatorze dias atrás o melhor barbeiro do universo abriu firma em outro lugar e abandonou a barbearia dele no centro. Que por acaso, agora é um consultório minúsculo de um dentista completamente duvidoso (deve ser do tipo açougueiro). Fiz a barba no primeiro barbeiro/cabeleireiro que encontrei. Há uma ordem maluca em parte das coisas. E essa ordem maluca deve ser respeitada. No final das contas o cara era um açougueiro iniciante: fodeu só um pouco meu rosto, e a pele ficou irritada pra caralho, alguns cortes, normal. Nem todo mundo sabe fazer barba. Nem todo mundo sabe como funciona o universo.
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