Os dois deitados, lado a lado, nos bancos do carro, totalmente reclinados pra trás.
Por que mesmo você tem de ir embora?
Acho que nem eu mesma sei.
Então por que tá indo?
Você sabe bem o porquê.
Sinceramente?
Hm.
Não.
Ela vira o corpo pro banco do motorista e abre os dois olhos enormes, castanho-esverdeados, umedece os lábios e pisca algumas vezes. Respira pausadamente e talvez esteja insistindo pra que eu faça o mesmo.
Eu nunca fui embora.
Conversa.
Nunca. Desde que ainda existam livros do Neruda pra te mandar, nunca fui embora.
Mas um dia os livros do Neruda vão acabar e daí, mesmo com quaisquer outros motivos, talvez isso seja um prelúdio de merda.
Você sempre desaprende de beber, de tornar as coisas simples, de muitas coisas. Até que você aprenda definitivamente e sobrarem livros do Neruda, eu não vou embora.
Acho que isso tomou um rumo meio estranho, sabe?
Também acho. Lembra aquele bilhete que eu te deixei da primeira vez?
Lembro.
Lembra da última frase?
Lembro.
Virei pro banco do carona, abri meus olhos pequenos, castanhos-sem-graça, contraio o lábio seco e não pisco. Mantenho o olhar fixo. Prendo a respiração por alguns segundos e insisto pra que ela fale por mim.
“Nos veremos em outra vida quando formos gatos”.
Pois é. Mas daí que essa outra vida chegou e nos vemos uma vez ou outra e sempre tem isso de outra vez, outra vez. Pra mim, ir embora em movimento nunca foi problema. Foda mesmo é ir embora e me manter parado, no mesmo lugar. E isso me mata.
Como agora.
Como agora. Isso significa que essa outra vida acabou?
Sabe quantas vidas os gatos têm?
Sete, nove, sei lá, um monte.
Então não.
Ainda não?
Isso é um problema de tempo.
Porra, eu sei, eu sei
Quando você acha que as coisas acabam?
Coisas?
Ah, as coisas, você sabe, tudo.
Ah, todo momento.
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