Funcionário exemplar, aparência impecável, sorriso branquíssimo, dentes alinhados, cabelo devidamente repartido, mesa extremamente organizada, ambiente de trabalho limpo, eficiência total, perfeccionismo quase-que-inverossímil. Falava bem, portava-se melhor ainda. Boa relação com colegas de trabalho, comunicativo, crescia rapidamente em todas as funções às quais era indicado, promoções e mais promoções, alvo de algumas invejas – e paixonites das colegas de trabalho (inclusive as casadas). Era um rapaz atraente, charmoso e com uma capacidade de raciocínio incrível. E ainda por mais, solteiro. Saía pouco, as relações eram só as do trabalho, algumas no prédio onde morava.
No prédio onde vivia era morador exemplar; pagava tudo em dia, não fazia reclamações, não perturbava ninguém, era cumprimentado por todos, mantinha seu apartamento no mais completo e tranqüilo silêncio, tinha mania por limpeza, até mesmo a entrada, o corredor, a porta, eram limpos. Um dos moradores mais antigos, um dos mais respeitados. Dormia pontualmente às 20h45, acordava pontualmente às 4h15. Almoçava, pontualmente, ao 12h, jantava, pontualmente às 17h50. Nunca adoecia, nunca faltava ao trabalho, ganhava bem, muito bem, mas continuava na mesma vida, por capricho, talvez, quem sabe.
Fazia sucesso com as garotas, duas vezes ao mês, duas garotas diferentes, todos os meses. Entravam no apartamento no sábado à noite, e a quem batia a curiosidade de observar, na manhã seguinte, elas não mais estariam lá. Rapaz educado, jeitoso, bondoso, etc., etc. Eram os comentários pelos corredores, dos vizinhos, dos empregados, dos colegas de trabalho, das pessoas na rua. Tinha um pequeno jardim na janela, flores lindas durante o ano todo; excepcionalmente cuidadas, uma espécie pra cada estação. Geladeira sempre cheia, roupas lavadas e passadas, cuidados impecáveis. A mãe do garoto levado, do 203, dizia que seu filho teria de ser igual àquele homem.
Dia pesado de trabalho, aquele santo dia de quinta à noite. Subiu as escadas, sempre tomava as escadas. Não demonstrava, porém, cansaço ou desânimo ou fraqueza ou coisa alguma, além de um doce e sutil sorriso e seus gentis olhos castanhos mirados à alguma coisa em frente, que talvez, só ele poderia ver. Gotículas de suor, mínimas, concentradas no colarinho, desabotoou alguns botões, respirou fundo, mordeu os lábios, com chave em mãos abriu a porta. Caminhou lentamente porta adentro, posicionou os sapatos negros ao batente, à entrada. Meias dobradas, dentro dos sapatos, foi até a geladeira, abriu calmamente a porta cor-de-prata, serviu-se de um copo d’água, sentou em frente à geladeira aberta. E a nova tecnologia frost-free permite a observação geográfica de seu interior. Outro copo d’água. Tomou na outra mão um folheto, propaganda de uma loja, geladeiras em promoção.
Queria alguém pra conversar. Tentou: algumas palavras, interjeições, vocativos, chamamentos absurdos, grunhidos, nada. Ao menos sairia com outra garota no dia seguinte, e ela estaria ali, com ele, no sábado. Até mesmo, que as cabeças femininas dentro dos três freezers e da geladeira já não respondiam mais ao som de sua voz. Mas ainda olhavam fixamente em seus gentis olhos castanhos. Analisou os preços das geladeiras.
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