sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sobre os 500m na chuva e a indefinição das palavras.

Hoje veio a chuva. A chuva que eu predisse. A chuva que eu sempre predigo. O céu estava limpo, a lua de sorriso branco e deitado na noite, dentes alinhados no deserto de escuridão, e estrelas feito milhões de oásis, quase um relance de miragens no infinito. Mas ela me fala numa língua inaudível a outros ouvidos. E seu perfume... Só eu posso senti-lo. Como bom animal, aprendo com o lobo deitado em minhas costas, instintivo, existencial. Conhecimento pré-existente, coisa que pai e mãe não ensinam, que é de clã de si mesmo. Levanto as orelhas, ouço, de longe, sua chegada. O presépio de massas de ar que se aproxima. Na pele, o toque, a presença ínfima e atmosférica de sua existência. Baixo as orelhas, fecho os olhos, aspiro o ar, várias e várias e várias vezes. Cheiro. Não, não, farejo o vento, inspiro, expiro. A chuva que eu predisse. A chuva que eu sempre predigo.

Fechei as janelas, reuni minhas coisinhas, meus pensamentos, minhas impressões, expressões, coisas bobas, simples e desconexas. Saí, experimentei o toque passageiro do suposto clima ameno, o cansaço, o mormaço, o suor. Movimentei meus pés pelas pontes de pedras por entre as placas tectônicas, caminhei sobre a lava, a rocha derretida, liquefeita, fundida. Encontrei meus amigos, o novo antigo, o resistente existir no que há de eterno, no que há de interno. Emiti grunhidos, sorri com meus brancos caninos expostos ao solstício noturno, ao equinócio soturno, à madrugada. Estiquei meu corpo, estalei minhas vértebras, conduzi planos, tiranos, sonhos humanos, planejei viagens, conquistei planícies, fui até Santos e nem saí do estado.

Na volta, guiamos o carro, um no volante e o outro no banco, funções inexistentes de forma separada, fibras têxteis do caminho de casa. Desfazendo o embaraço da neblina fajuta, neblina de mentira, aqui não há – de tão torpor e facilidade – uma neblina. A temperatura e a chuva embaçam o vidro. O céu é cinza, cinza abissal, cinza fundo de rio parado, gotas suicidam-se contra o vidro, gotas, gotas, gotas, insetos estranhos, capengas e redondos – oxigênios -, de suas asas de hidrogênio. Me despeço. Corro, disparo meus pés a tiracolo, soluço meus membros sempre em frente. Mas não há necessidade. Não é o corromper. Não é a obscuridade, a treva, o nefasto. Eu a predisse. Eu a predigo. E o enxame de insetos pousam gentilmente na derme fria.

E com tudo, algo novo. Até que eu percebesse, até que eu notasse. Na chuva, que eu predisse, o fim do deserto de coisas também boas: seu cheiro veio doce, como tantas outras coisas surgem, mas desaparecem na primavera. Mas ele não vai. Não vai embora. Amanhã a chuva estará longe, refazendo seu caminho, viajante eterna, cortejadora de distâncias. O lobo monta em minhas costas, desaba ao pé de cama, fecha os olhos, grunhe bem baixinho, defasa a própria essência. E você ainda estará aqui. Você sempre esteve aqui, eu só precisava reconhecer sua presença – até dormir e acordar, mesmo tão longe, sempre ao seu lado. Enquanto minha alma guarda sempre o seu sono.

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