sábado, 17 de abril de 2010

Trem das onze

Mesmo através das roupas grossas, o contato com o metal do banco lhe provoca rápida contração de todos os músculos do corpo. Depois do choque, respira de olhos fechados, inflando o ar de forma penosa e aliviando o peito com a expulsão de toda e qualquer coisa que havia por dentro. Ajeita-se por dentro das roupas, sobe a gola até encobrir toda a nuca, colar no queixo, esconder o início das bochechas. Seus olhos pequenos flutuam calmamente, limitando o campo de visão ao ilimitado. Com o gorro cobrindo a cabeça e parte dos ouvidos. Seu cabelo negro descia por debaixo da lã, amontoava-se numa franja desajeitada e desarrumada, e, mesmo assim, charmosa. Observava o movimento das várias pernas por ali, às vezes, por limitar de altura, crianças entravam em seu campo de visão. Sorria gentilmente, sem mostrar os dentes.

Do bolso do casaco, retirou um pequeno livro, do qual escondia a capa com toda a mão, todos os dedos. Não se sabe se propositalmente. Nem ele mesmo sabe. Cruza as pernas levemente e curva o corpo. Abaixa a cabeça, reduz seu metabolismo numa quase-meditação em leitura. Respira mais algumas vezes. Antes da ocupação com o cheiro das páginas e das palavras impressas, observa o ar de sua respiração, condensado, saindo de seu nariz e de sua boca. E ouvia os passos das pessoas, ecoando seca e suavemente pelo chão encardido. Suas órbitas acompanhando as ondas sonoras que desenhavam silhuetas na atmosfera. Algumas coloridas, outras não. Mas de mesmo padrão espectral. Ou não. Passos longos, curtos, leves, pesados, traços, amplitudes e desenhos diferentes.

Concentrou-se no livro. Abriu, como se fosse braile, tocou suavemente suas páginas. Procurou pelo marcador, abriu na página ‘adequada’. Leu algumas palavras e retornou a toda diagramação do que ocorrera pouco tempo atrás, personagens, enredo, idéias, mensagens, metáforas, entrelinhas, tudo. Mergulhado ali, enquanto o frio corava sua face e seus olhos sumiam por entre as pálpebras: palavras transformavam-se em frases, que se transformavam em linhas, que se transformavam em estrofes, que se transformavam em páginas, que se transformavam em capítulos, que se transformavam em minutos. Vários deles. Por vezes, com rabo de olho, captava algum movimento próximo. Por vezes, com o impossível de ouvidos, captava algum ruído próximo. Levantava a cabeça e olhava ao redor, analisava rapidamente todo o cenário e retornava às profundezas do oceano.

Mais palavras, frases, linhas, estrofes, páginas, capítulos e minutos. Vários deles. E um cheiro inexplicavelmente doce. O suficiente para que nadasse incrivelmente rápido à superfície para respirar, e, quando em contato com o sol, no contrário do normal, seus olhos arregalados pulsaram por entre os raios de luz, enquanto o trajeto sutil desenhava o caminho abstrato, e com os olhos bem abertos, perseguia predatoriamente aquele perfume. Chuq-chuuuuuuuu..., os trens adormeceram. Dois trens pararam. Maquinistas, foguistas, guarda-freios, pessoas, pessoas demais, pessoas de mais. E enquanto tantas coisas aconteciam, o emaranhado estranho de traços era desmembrado e desembaraçado, fio por fio, enquanto ele seguia o perfume. Do outro lado, por alguns metros – que pareciam tantos mais – uma garota, aparentava o torno de sua idade. Também vestia roupas grossas. Assim como todas as pessoas dali. Inebriantemente frio.

Em contraste com suas roupas verde-musgo, azul apagado e branco, ela usava cores imitando o próprio cheiro, suaves rosa claros, azul bebê, amarelo-quase-branco. Nas maçãs do rosto encobria covinhas escondidas, impecáveis e ao pobre espectador desatento, imperceptíveis. Sorria mesmo sem esboçar sorriso, com olhos grandes, mas semicerrados, de órbitas amadeiradas, variante do mel ao castanho. O cabelo, escuro como há de se notar na ausência de luz, escapava por debaixo da touca rosa clara, também de lã. O fino pescoço no abrigo da gola alta – e também puxada até o início das bochechas. O livro já estava fechado, pousado no colo. Seus pequenos olhos agora estavam maiores, com os lábios levemente afastados, assim como os dentes, fazia-se boquiaberto em pequeneza. O ar gélido que saía de seus pulmões condensava ao sair da boca e das narinas. Tic, tac, tic, tac. Ela olhou o enorme relógio acima – alguns bons metros – da cabeça dele. Ele acompanhou o olhar, percebeu, em outra perspectiva, os ponteiros que decaíam lentamente, guilhotina armada, lâmina descendente, movimento friamente incalculável.

Pernas continuavam a passar. Pernas, pernas, pés, sons, crianças, e todos e quaisquer sentidos estavam concentrados nela, não no obstante resto do mundo. Quem passava e percebia o que acontecia ali, achava graça. Pouca gente, pouquíssima gente. Quase ninguém. Mas houve quem, de perceber, riu de forma abafada. Reunir coragem? Forças? O que dizer? o que dizer? o que dizer? Bom dia? Boa tarde? Boa noite? Acenar? Sorrir? A inércia o impedia de levantar-se do banco. A inércia, claro, claro. Mas é possível distinguir inércia de covardia. E covardia de vergonha e timidez. Mas nesse caso, somando tudo e adicionando frio congelante à equação, obtém-se a resposta. O que fazer? O que dizer? Contou os ladrilhos até lá. Quantos passos seriam necessários? Calculou, que, pelo tamanho de seu pé e de sua passada, caso fosse a passos curtos, demoraria tal tempo. Caso fosse a passos longos, demoraria outro tempo. Mas caso fosse lento demais, daria a impressão errada. E fosse rápido demais também.

Faltavam palavras, apesar de tudo. Palavras, frases, linhas, estrofes, capítulos. Mas não faltavam minutos. Muitos deles, na verdade. Apesar de protegido em suas grossas roupas, sentia arrepio, frio interno, vergonha, medo, timidez. E baixas temperaturas. Borboletas no estômago? Não, não. Eram libélulas pré-históricas, zunindo, batendo asas, chocando-se contra as paredes estomacais. Ela pensava em alguma coisa qualquer, mordendo os lábios de vez em quando. E, pensava ele, como era doce, não só o perfume, não só o conjunto de cores, mas aquele rosto, os lábios mordidos, os olhos e o, imaginável, corpo miúdo e frágil por debaixo de tudo aquilo. Minutos, minutos, minutos, a guilhotina pesava, pesava e pendia firmemente. O olhar dela foi até o relógio mais uma vez, ele a acompanhou. Na volta, tic, tac, tic, tac, os olhares encontraram um ao outro. Ela sorriu cordialmente, e mesmo assim, de forma – doce. Em êxtase diabético, ele não soube o que fazer, retribuiu com cara de bobo, semicerrou os olhos já miúdos e ficou em jeito. Ela desviou o olhar e cruzou as pernas. Ele descruzou, é agora, é agora.

Levantou-se. Não, não. Jogou o corpo pra frente, quase, inclusive, caindo no chão. Por precaução, havia segurado em uma das barras que ia do chão ao teto. Olhou os ladrilhos, o chão, as pessoas. Pré-determinou um caminho. Passo um. Pé esquerdo? Pé direito? Pé direito, pé direito! Na indecisão, tropicão de leve, riu de si mesmo pra disfarçar. Caminhou, caminhou, adquiriu velocidade e percebeu que ela estava de pé, recolhendo as próprias coisas do banco e do chão. Uma bolsa e uma sacola. É a chance. Agora, agora, agora. A tendência de todo corpo em movimento é permanecer em movimento, ande, ande, ande. Inércia, inércia, inércia. Ela olhou, acenou e entrou no trem. Seus passos, por motivos inexplicáveis, contorceram e diminuíram de ritmo.

Chuq chuq, chuuuuuuu.... chuq, chuq, chuq, chuq, chaaaaaa... maquinistas, foguistas, guarda-freios, pernas e mais pernas e ela. O trem tomou movimento, ela sorriu e voltou a seus próprios pensamentos. Cabisbaixo, enquanto o trem tomava incrédula distância, retornou lentamente ao seu banco. Olhou o relógio. Os ponteiros. Os ponteiros? Era o horário de seu trem. Seu trem... correu mais uma vez até a borda da plataforma. Apertou os olhos e viu o fundo do trem que acabara de partir, junto de maquinistas, foguistas, guarda-freios, pernas e mais pernas e ela. Alguns números. Recolheu seu bilhete do bolso. Os números batiam. Maldita diabetes.

Um comentário:

  1. adoreiiiii!!!! meninoo ainda não acredito que são seus.. mto bons intensos e por vzs complexos...mas mto criativos..adorei...só li alguns... aos poucos vou lendoo bjjj

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