Nos dias que se passaram, havia saído com as garotas. Nos últimos, principalmente com a que havia conhecido há pouco tempo. Éramos três, inicialmente. O número reduziu-se a dois, eu e ela. E, no mínimo, éramos uma dupla interessante pelos caminhos da cidade. Eu, tendenciosamente brasileiro (negro/português/índio/espanhol/bretão). De costas largas e um tanto alto. Cabelos e olhos pequenos – castanhos; todos. Ela, tendenciosamente francesa, sem ao menos atingir a pronúncia correta de meu nome em português, terminava o fonema das palavras com sua voz falha, com o arrastar capcioso – e doce – da pronúncia. Não-tão-branca quanto se imaginava, mas, ainda sim, branca. Loira, cabelos compridos e com cachos nos finais, quase clichê; boneca mínima. Bochechas um tanto graúdas, covinhas, rosadas, enormes olhos azuis. Baixa, corpo pequeno – e por mesmo assim, ainda tinha o desenho dos quadris e certo volume de seios.
A terceira garota, antes da separação, era a dona da casa onde Antonie estava. Antonie. Antonie. Que eu soubesse, assim por ouvir seu nome, imaginei que era um homem, que seu nome era Antoine, que era algum engano. Mas não, era algum tipo de homenagem, composição de nomes próprios, algo do tipo. E por si, era seu segundo nome. Mas utilizava como apresentação, detestava ser chamada por Marie, quanto mais Marie Antonie (Marrí Antoní). A terceira garota era uma grande amiga, e por encontros e desencontros, acabei por ajudá-la no passeio pela cidade, como co-guia. Seu irmão estava na França, na cidade de Antonie. Intercâmbio, intercâmbio. Não se precisava saber mais. Saímos os três, vencemos a timidez da garota - que se mostrou ótima companhia – e garantimos apresentações nada convencionais à cidade.
Separamo-nos depois de alguns dias, quando Roberta gripou. Insistimos qualquer coisa junto dela. Não, não, teria de mostrar o resto da cidade e das coisas a Antonie. Foi exatamente o que fiz. O que fizemos. Livre de sua timidez, nós conversávamos bastante. Sobre praticamente tudo, feito amigos de tantos muitos anos, como, por acaso, nos tornamos mais tarde. Andávamos de braços cruzados, rindo, um ensinando a própria língua ao outro, verbalmente, claro. Aquela garota, um ano e meio mais nova, realmente fazia com que eu me sentisse bem. E apesar dos poucos dias, até permitíamos um ao outro o relance de certas intimidades. Contei-lhe sobre meu caso com uma garota muito mais velha, de como era complicado – e ao mesmo tempo tão simples. Contei-lhe de como e quando perdi a virgindade, de detalhes bobos, de detalhes importantes. Contei, inclusive, de minha sinestesia – primeira pessoa, a saber. E ela, contou-me do mesmo, de tudo.
Seu cheiro azul-claro me preenchia de torpor eterno, como se bêbado de éter, eu pudesse caminhar de forma estranha, incompleta, sem ao menos haver incômodo. Talvez, pelo contato tão constante e intenso entre a derme, talvez pela necessidade das células de experimentarem pontes citoplasmáticas, da troca intercelular, da troca extracelular, imprimimos um ao outro nas exceções do sistema imunológico, talvez, só talvez, o carinho preliminar nascia do contato distante e próximo. Até que ensinássemos, um ao outro, sua própria língua. Buscando ar a respirar, recostada a meu ouvido, dizia certas coisas, que ao mesmo tempo de não compreender seu francês, conseguia ler e sondar quaisquer coisas que me dissesse, desde seus significativos olhos azuis, até sorrisos maliciosos, quando escapávamos da companhia de terceiros, de Roberta, de seus pais. Tabelávamos beijos escondidos.
No final do intercâmbio – só a conheci perto de partir – depois de passar muito tempo nas aulas, e de conhecer muito da cidade, teria de voltar. Por mais algum tempo, o que se teria de fazer era a companhia à anfitriã, filmes em casa, longas conversas. E por esse ponto, as mãos dadas eram inconscientes e percebidas por todos – algo desnecessário a comentários. De tudo que houvera, até na troca de tantas outras coisas, no memorável sexo de um a outro, de por demais carinho, a amizade era algo totalmente diferente, sem fim, sem desestabilizações, confusões. Em partida, manteríamos por tempos o mesmo diálogo, as mesmas coisas, o mesmo tipo de carinho. Num misto de melancolia e felicidade, continuávamos cúmplices de algo que mais ninguém sabia, mesmo de que conhecessem ou notassem cada manifestação e por si, cada um dos enlaces. Mas o que acontecera, era algo que estaria em todo mundo – ou parte dele.
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