quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Homem Que Não Sabia Morrer

Cor do céu, cor dos olhos, cor da pele, tons pastéis. Tudo se torna cego. O tempo apaga suas próprias cores. A cor do tempo é sem-cor. O infinito é o arco-íris que deixou de existir em si mesmo, e a morte é apenas uma das cores que se perdeu a quem não enxerga o óbvio à sua frente.



Apesar do ocorrido, o fluxo da cidade permanece inalterado. Às sete e meia da manhã, a massa trabalhadora já havia feito o deslocamento necessário, as aulas já haviam começado, os programas matinais haviam atingido um quarto de duração, as ruas ainda estavam movimentadas, ainda havia congestionamento, o ritual paisagístico do dia. O tempo pára, o mundo congela instantaneamente. Podemos fazer isso, temos de fazer isso. Só assim poderemos observar exatos detalhes e minúcias, o tempo com tempo do observável. O fluxo parou, as correntes sangüíneas foram interrompidas. Suas milhões de células estejam onde estiverem, estagnaram. Siderúrgicas, escritórios, apartamentos, escolas, lanchonetes, igrejas. Arquivamento, aula, solda, discussão, sexo, benção, nascimento, dor.

O tempo emudeceu. Concentremo-nos em um determinado ponto. No bairro, no conjunto, na avenida, na rua, no momento. Ele está ali, milésimos de segundo de sua morte. Ao menos, é o que se imagina. Um motorista bêbado avançou o sinal vermelho e trombou em sua moto, jogada bruscamente ao espaço, e seu corpo, inerte, contrariando o destino da sobrevivência, está a poucos centímetros do chão. O capacete foi arremessado junto da motocicleta. O impacto principal será ao longo de seu dorso, mas, por ironia do destino, seu pescoço forma um ângulo fatal, traumatismo, fim. Não podemos interferir.

Percebemos, atentando aos detalhes, que talvez o tempo não tenha parado. Que o universo esteja funcionando em uma lentidão micrométrica, no locomover imperceptível da perpetuação. Não, o tempo não parou. Algumas faíscas provocadas pela colisão estão distanciadas de seus pontos dos segundos passados. E percebemos isso. Percebemos que os centímetros da morte tornam-se menos exatos e conjuntivos, os milímetros desatam da superfície da Terra. O acaso rolou seus dados naquele exato momento, em que tudo mudou. Cronometradamente, a medida do destino passa por diante das órbitas negras e abastadas daquele rapaz. Por ironia do destino, seu pescoço forma um ângulo fatal, traumatismo, fim. Não podemos interferir. E mesmo pudéssemos, agora é tarde: uma multidão tumultuosa está reunida ali. Não há o matinal sem café, açúcar ou adoçante, coágulos.

Naquele exato momento, de forma inexplicável, existe vida. Existe a regressão, a digressão, o firmamento, finalmente, o fim. Aos poucos percebe o desenlace da situação, as provas efetivas, a realidade inegável. O que esperava, ou não, era o torque cinético, o movimento frenético e o bater de pregos do caixão. Fosse qualquer maneira, morto. E ao mesmo instante, o mundo corre em círculos que inesperadamente levam a algum lugar. Seus olhos fechavam-se lentamente, a visão conhecia a cegueira gradativa, a língua acostumava-se com o gosto do sangue, que mais lembrava o nada. O cheiro era de incerteza, e a cor era do tempo. A cor era sem-cor.

Duas horas da manhã, e algo aconteceu. Um homem acorda com o suor escorrendo-lhe às faces. Presumimos que tenha em torno de cinqüenta e seis anos. Está ofegante. Sua mulher continua imóvel, como nada tivesse procedido. Talvez perguntasse o ocorrido, presumiria um sonho ruim, afagaria sua cabeça com um ou dois beijos. Nada disso aconteceu, a mulher estava mergulhada na distância de si mesma, na quase imobilidade: seu busto e barriga movimentam-se no respirar. O homem está ofegante, algo de errado. Ambos os olhos arregalados, o suor pingava nas cobertas e a podridão da morte embebia suas narinas. Um sonho? Não precisamos nos contentar com a dúvida. Nossa onisciência limitada permite o semi-exato da explicação. O mundo não está mudo. A rótula descompensada do tempo, agora, não passa de uma sombra. Em algum lugar, o qual, nossa onisciência limitada não nos permite definir com precisão, um jovem está morto. O sangue já não escapa por aberturas. O ângulo fatal de seu pescoço foi desfeito, sua funcionalidade foi comprometida, missão cumprida. Ali, onde o sangue derramado na rua ainda estava fresco, o tempo corria no viés das sete e trinta e cinco. Aqui, onde o homem respira penosamente, são duas da madrugada, e simultaneamente o relógio dá voltas, os segundos estão precisamente combinados em seu passar. Existe distância, grande distância, existe um fuso-horário. Ouvimos algo. Um grunhido aos poucos se torna uma frase sussurrada, surrada. Não morri? E o jovem motoqueiro suava frio por detrás das grossas cobertas. Sete e trinta e oito da manhã; duas e três da manhã. A cor do tempo é sem-cor.

Existe uma sincronia das nuvens que circundam o céu. A porta do quarto estava entreaberta. Em um ponto mínimo a cortina permitia a entrada de um pequeno filete, a luz da lua e a luz dos postes. Misturavam-se, contorciam, espremiam-se pela borda, pelo parapeito, serpenteavam pelo chão. O que aconteceu? Onde estou? Percebeu que alguém estava do seu lado. Mas aquela não era seu apartamento, muito menos seu quarto. Sentia-se estranho, também. Livrou-se lentamente das cobertas, tocou os pés no chão nu, frio. Tateou o corpo em busca dos recém-chegados ferimentos. Procurou por sangue, deslizou as mãos pelo corpo, sentiu os pêlos, pêlos do peito, que antes não tinha, pêlos. Que nunca tivera. Mas sangue, de sangue, só por dentro da pele, carne, vasos. E do mais, apenas suor, do sono afetado, suor, do susto, suor do corpo que já não era seu.

Por crer, imaginou que era sonho, ou pesadelo, ou uma coisa qualquer. Sabia quem era. Sabia de sua mãe, sua irmã, seus amigos, sua moto, seu contrabaixo, sua namorada, sua casa, sua vida. Mas aquele? Aquele não era seu corpo, sua vida. Tinha esposa, filhos, um netinho, era professor aposentado, ostentava orgulhosamente seus fios grisalhos. Estaria em coma? Num hospital, algo do tipo? De forma automática, sem ao menos compreender, atravessou a casa, foi até a cozinha, tomou um copo d’água. Foi até o banheiro, lavou o rosto. Lavou várias vezes. Olhou-se, finalmente, no espelho. Como? Como? Apertava, beliscava e tateava sua pele, seu rosto. Que não eram seus. Fez movimentos ao espelho, a imagem correspondia a todos.

Naquele exato momento, de forma inexplicável, existia vida? Esfregou os olhos. Nós? Nós não sabemos o que aconteceu exatamente. Semi-onisciência, limitações. Às informações que temos, pode-se inferir total veracidade e credibilidade. É a parte não-falha. Desde que haja conhecimento, ele é correto e inegável. Filhos de deuses onipotentes, onipresentes e oniscientes, somos, porém, filhos de humanos também. Semideuses, semi-humanos: invariavelmente limitados até que se descubra a verdade. Este senhor sempre existiu. Aquele rapaz, também. Reencarnação não explicaria, caso puséssemos em pauta. Não, não. Transferência de corpos? Troca? Não. O rapaz sempre foi o senhor. Mas nunca, realmente, viveu aquela vida. O relógio machuca a surdez do vento, tic, tac. Naquele exato momento, de forma inexplicável, existe vida.

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