domingo, 28 de março de 2010

Sobre o antigo e a não-salvação

Reunindo a indiferença fingida, respirou o ar macio, que por tanto de macieza, ainda torturava seus pulmões. E contendo lágrimas impassíveis do fundo dos olhos, tomou fronte de suas mãos, estendeu os braços e abraçou o vazio ao desprender de si mesmo, e do chão, seus pés. Expirou o ar como se o oxigênio antes tragado fosse o papel branco do cigarro, e que o gás carbônico fosse nada mais que fumaça entrelaçada de curvas; e, até mesmo acreditou nisso, em certo momento contraindo os lábios e assoprando sutilmente. Reparou que todos os ruídos audíveis formavam um emaranhado de mudez absurda, como se a presença por si só se desfizesse na atmosfera.

Ali, diante dele, diante de tantas coisas infinitas que viviam e soerguiam matéria inexistente por detrás de seus pensamentos, lá estava, ela. Abismada com a própria existência, carregando sua inquietude em defronte do abismo da distância aproximada. Tantas coisas que eram, agora, lembranças; tantas lembranças que se tornaram, agora, longitude no silêncio. Levantando a palma diante dos olhos, ele imaginou que cada uma de suas supostas células fosse uma partícula que esvaecia diante do tempo; e o que mais temia – tornar-se nada mais que recordação – era agora fato consumado e em consumação.

Abraçaram-se longamente, um engolindo o choro do outro, enquanto todas as estrelas mantinham-se de costas para a Terra. Afastando a existência mútua, separaram as bocas antes mesmo que selasse um beijo, e a carne antes que houvesse contato. E o eco de alguns segundos permaneceu inalterável por toda eternidade, suave e, quiçá, uníssono. Ela desaparecia por dentre as ondas do mar, reaparecendo em relances por entre as marés; ele voltava ao chamado inferno mortal, paralisado como lobo em existência óssea.

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