sexta-feira, 26 de março de 2010

Quase-parágrafo no. 4 - Get the Road

Todo o céu, todo azul, e as intensas manadas de nuvens proliferando a brancura no oceano de vento, até as profundezas do antes-espaço. Numa dessas cadeiras duplas, das quais costumo evitar, um senhor de idade, magro e com camisa cor de oliva no lugar próximo à janela. Eu, eu, desafio à inércia, ousado, inconformado, entediado, contraindo e retraindo todos os músculos na tentativa do não-voar junto das curvas e freadas bruscas. Ou bem que não, que seja, estou à posição do corredor, de ombro feito alvo pros encontrões de bolsas e senhoras enormes em largura e imensas na falta de tamanho. Dos fones de ouvido, músicas aleatórias, quaisquer músicas, nem atento, a sinestesia a todo vapor, traços e lençóis partidos sacudindo no vento. O barulho de todas as peças, inclusive as inexistentes, remoendo e chacoalhando junto do ônibus, e de todos os passageiros. Sou um deles, um passageiro perplexo e mirrado, minha vida, coisas tão bobas. E no momento áureo, eis que a iluminação xamânica, o peyote das montanhas, nescalina de fim de pote, o alguma porra louca inexplicável. Ray Charles. Não conheço – por hora – tanto de Ray Charles a identificar quaisquer de suas músicas. A sinestesia inverte, tragado até as profundezas da contemplação – como de praxe – eis que tudo é diferente, mesmo continuando da mesma forma. Algo já definido, mas inexplicável. Soul, jazz, blues. Prefiro continuar chamando de melodia de revirar as entranhas da alma. Aquela voz surrada, debatendo gentilmente o piano. O chacoalhar do ônibus adquire ritmo, cadência. Ou não. Que seja. Que seja. Eu adquiro. Remexo como se o velho Ray conduzisse meus movimentos, como se eu fosse o velho Ray ao piano. Em mãos, a bíblia do beat, Sal, Dean e Laura no apartamento, conversando freneticamente sobre a viagem de Moriarty Jr. e sua ocarina bêbada. O que eu sou? O que eu sou? A letra, agora proposto a escutá-la, é triste, é dolorida, traz lembranças, traz tanta porcaria. E sepulta a indiferença do passageiro de ônibus. Sacudindo lentamente, remoendo, laços intensos no ar, On the Road no colo, e a alma espremida nos vãos absurdos do corpo. E a música, tão destrutiva. Brota um sorriso, pétala por pétala, em fotossíntese, em disparidade, no asfalto. Quem sou eu além do céu azul?

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