Quando se decide abandonar o sentimento por alguém as coisas se tornam um tanto complicadas. Pelo menos ao neo-romântico encubado que há dentro de todos nós. Outras até bem simples. Durante o processo de desintoxicação, assim como em qualquer outro, a abstinência provoca crises terríveis. Passar horas agarrado com cobertores forçando a memória mais infecunda possível, tentar sentir o cheiro lavado e esfregado dezenas de vezes depois de semanas. Abraçar os travesseiros e trazer de volta a memória de como era tê-la suando e respirando e gemendo e sorrindo e falando, mesmo quando todas essas coisas não tinham o menor sentido. E mesmo assim, no limite absurdo da neurose, sentir a presença na roupa de cama que na verdade tem cheiro de amaciante. As maratonas de músicas que você ouviria uma vez ou outra, mas precisa passar por sessões cheias de pieguices e repetições de estrofes. Talvez não fizessem nenhum sentido antes, mas na situação são tendenciosamente direcionadas ao seu caso, à sua história.
Jogar o lixo, arrumar a bagunça, adiantar trabalhos, resolver pendências, ler tudo aquilo que você queria há tempos. Talvez não imediatamente, mas em algum momento a grande explosão de percepção fará com que você perceba as coisas que tem de fazer. Que quer fazer. E compara seu caso com as maluquices que você vê por aí, em histórias, com amigos, com os casais que passam pela rua, nas explicações biológicas, nas letras das músicas que você não ouvirá por muito tempo. E é então que você precisa fazer a barba ou raspar as pernas e cortar o cabelo e as unhas e sair de verdade, ver a luz do sol de verdade sem enganar a si mesmo. Até lá, qualquer tipo de gozo forçado só remeterá ao corpo estremecendo no silêncio e os dois ofegando nus e jogados e debruçados e lado a lado como vítimas de um atropelamento amoroso. Você percebe que foi casual. Que não deveria ter levado as coisas tão a sério. Alguns pensam em se matar, mas usam só dois três comprimidos pras dores de cabeça ou a faca pra cortar um pedaço de bolo ou uma fatia de pão.
Em pouco tempo você usa de todo o sofrimento pra criar desculpas e bobagens pra dizer quando lhe perguntam sobre como você está e o que fará. Diz que não acredita nisso, naquilo, que atestado e comprovado é não cair no engano do apego. Dias depois está atracado com alguém e se pergunta o que acontecerá dessa vez. Talvez não imediatamente, mas em algum momento de muito tempo depois perceberá também que os dias e as semanas e os meses passaram rápido, que as tardes e madrugadas de dores no corpo e soluços fazem tanto tempo que são uma realidade distante do que você é. Mas sabe que faria tudo de novo. E que fará. Por enquanto você está a salvo, o romântico exagerado respirou e você está tranqüilo. Até pelo menos acreditar que ama o único amor que há por aí. Mesmo sabendo que mentir pra si mesmo é crueldade. E amar mesmo, você só ama o amar.
PUTA QUE PARIU, FELIPE! Você é foda!
ResponderExcluirÉ muito bom achar um texto sobre superação em meio a tantos de sofrimento contínuo e desejado que eu ando vendo.
ResponderExcluirParabéns. (: