sábado, 15 de maio de 2010

Quase-parágrafo no. 6 – O quase ar do esporro.

Sem quaisquer aprofundamentos metafísicos, psicológicos, racionais ou irracionais, mas pelo simples fato de ser. Os braços jogados no semi-arco do impulso, as pernas se debruçando contra a inércia, corroendo a poeira morta no pavimento. A chuva grossa, de gotas pesadas e inafiançáveis repelindo cada célula do corpo. A respiração balanceada, imitando o ritmo imaginado das pancadas d’água. Os cabelos desgrenhados, escorrendo, pingando, desabando cada partícula imprescindível. O dorso em retaliação contra a atmosfera, a boca semi-aberta, os pés machucando os próprios passos que são apagados em morte cínica. E tudo isso, isso, e qualquer coisa, qualquer porra louca a mais. O céu cinza, tão cinza, cinza, quase róseo de tormenta, alguns riscos defeituosos de eletricidade raspando as quinas da rosa dos ventos. E tudo isso, isso, e qualquer coisa, pra chegar a algum lugar, desde que seja esse lugar qualquer e apalpar com cada fibra até então inexistente, até então incomprovável, e as partículas mortas do sol e da lua, perdidas na superfície da pele, de contrair coxa contra coxa, aumentar a pressão e definir cada músculo e tendão em vingança contra si mesmo.

De misturar o seco com o molhado e criar o mais-que-molhado, conjugá-lo em tempos adversos, desgraçar as janelas abertas e fechadas, suas luzes acesas, as TVs ligadas, os postes queimados, as avenidas absurdamente escuras. Contra atacar com armas inimputáveis, desgastar a matéria na absurda necessidade por matéria, sugar a eletricidade que corre pelas veias, poer o sangue em derme e rescindir cada um dos gemidos e gritos abafados. Crispar caralho a quatro, atirar contra cada uma das linhas rasgadas, soterrar a mais-sombria-solidão, negar resgate a qualquer tipo de esperança, de volta, aceitar a condição de náufrago no mar de simples puros quatro braços. E tudo isso, isso, e qualquer coisa, qualquer porra louca sem quaisquer aprofundamentos. Na ânsia, no gozo, na dicção de cada sílaba e cada átomo recolhido próximo dos ouvidos. Até que pare de chover, até que o sorriso mudo cale por algumas horas perdidas de um dia qualquer. Dia de chuva.

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