sexta-feira, 14 de maio de 2010

La boceta

Era dita daquela forma desde nova, arrebatando cada um dos moleques, e mais tarde, cada um dos rapazes, cada um dos homens. Era a deusa dos reles mortais. Momentaneamente seus. Pilhava e empilhava as fragrâncias desde cedo. Os pêlos, os corpos, os cabelos. Diferente de toda e qualquer mulher que os homens dali haviam se quer imaginado. Seus seios, em perfeita simetria e tamanho na medida certa. Os mamilos, bicos róseos e concêntricos. A pele macia e livre de quaisquer imperfeições, naturalmente perfumada e espalhada num oceano longínquo de horizonte indivisível. Lábios intensa e sedutoramente desenhados, carnudos. As maçãs do rosto surpreendentemente bem colocadas, mínimas expressões de quando sorria por entre os dentes mais brancos que já existiram.

Cabelos escuros, extremamente lisos e com terminações de cachos gigantescos nas pontas, que iam até o início das nádegas. Olhos negros, do mais negro e profundo abismo, consumindo o campo de visão com o negrume inexplicável, que absorvia, inclusive, cada um dos raios de sol. Em formato árabe, oriental, sobrancelhas desenhadas e bem posicionadas. Corpo delimitado por curvas sutis e, mesmo assim, inacreditáveis. Sua espinha dorsal, alinhadíssima, comportava-se como a mais hipnotizante das serpentes, delineando o movimento base do seu corpo. Quadris médios, nádegas levantadas e redondas, praticamente esculpidas. Coxas grossas, pernas suaves e, ao mesmo tempo, fortes. A linha da barriga, em seu fim, apontava em meios ósseos e musculares, como em grande seta semi-invisível, o tal tesouro de entrepernas, a carne macia, os lábios frondosos, o pêlo ralo.

De alguma forma estranha, mesmo desde moça, conhecia todos os tipos de artimanhas de uma mulher, das quais, até mesmo as mais experientes e vividas não têm por completo. Cínica, decidida, inteligentíssima, astuta, ardilosa, atenta a todo e qualquer detalhe. Despertava desejo irrefreável, não só através do corpo, mas de seu ar de existir, algo além do próprio charme, algo perdido no espaço. E por si só, sentia prazer e ânsia constante, insaciabilidade em satisfazer a si mesma e a gama de corações dilacerados. Dominava, por completo, ao alcançar o último dos sentidos, entorpecendo com sua voz, invejável às correntes do vento que sopra nas estações.

Antes, garota vinda de um convento rigorosíssimo, nova na cidade, e já de trajes conservadores, despertava interesse em seus tios, padrinhos, primos, e em qualquer mulher que lhe prestasse o mínimo de atenção. Mas não, porque perto dela, não haveria outra mulher, outra qualquer. Seria ela, a primeira e real mulher dentre o mundo de todos os animais homens e supostas mulheres. Trazia do convento a habilidade incrível da tecelagem, a qual exercia como ninguém. Falava duas, três línguas além da própria, na qual se comunicava assustadoramente bem e com enorme clareza.

Adotada por freiras em um orfanato no meio do nada, construída, praticamente, em reclusão. E com todos os desejos controlados por todos os anos, pois que bastou abrir as pernas pela primeira vez a que se viciasse no corpo de tantos corpos. Porque foi, por a mera e pura curiosidade, aliada ao desejo, enxertou naquele mínimo mundo o que antes não se conhecia. Vício nas mais diversas drogas, homicídios, suicídios, tortura. Tudo em seu nome, tudo em sua prescrição, em sua existência, porque ela se fazia presente, existente, persistente. Mas, apesar de tudo, havia quem acreditasse que, do mesmo ponto de onde vinha tudo aquilo, restava o que não escapara por ali: a esperança. Talvez, só talvez, quando engravidasse, tivesse filho ou filha, tudo pudesse retornar ao que era. Onde maridos amavam as mulheres, onde quaisquer tipos de violência eram histórias contadas pelos andarilhos e bêbados da cidade. Coisas de tempos antes, tantos anos, tantos.

Pois que se dizia, pois que se repetia. Hefesto modelou-a em argila e, em seguida, animou-a, deu-lhe vida. Atena ensinou-lhe a arte da tecelagem, adornou-a com a mais bela indumentária e ofereceu-lhe o seu próprio cinto. Afrodite deu-lhe a beleza e insuflou-lhe o desejo indomável, que atormenta os membros e os sentidos. Hermes encheu-lhe o coração de artimanhas, impudência, ardis, fingimento e cinismo. As Cárites e a augusta Peito embelezaram-na com lindíssimos colares de ouro e as Horas coroaram-na de flores primaveris.

Zeus entregou-lhe um jarro incrivelmente ornamentado. Por fim, o astuto deus Hermes interveio mais uma vez, concedeu-lhe o dom da palavra e chamou-a Pandora, do grego Πανδώρα, Pandôra, significando "todos os dons". E dentre os mortais, posta de interior aberto, só a Expectativa (Élpis) permaneceu presa junto às bordas da jarra, porque Pandora recolocara a tampa rapidamente, por desígnio de Zeus. É assim que, silenciosamente, porque Zeus lhes negou o dom da palavra, as calamidades e misérias, dia e noite, visitam os mortais.

Um comentário: