Antes, cada milímetro-centímetro-metro-quilômetro de chão rachado-fervente era amplamente amaldiçoado. Alguns moleques passavam o dia inteiro jogando pedra pra cima, atirando de estilingue, tiro de arma de chumbinho, pra derrubar o sol, ou convencê-lo de que não era bem vindo ali. Não adiantava. Os mais velhos passavam mais perto, ouviam a munição passar zumbindo do lado, pertinho, pertinho, quase-raspando nas bordas amarelas da bolota amarela de luz amarela de calor amarelo, tudo, tudo, tudo doído de tão quente.
Rezavam novenas, terços, promoviam procissões. Faziam trabalhos nos terreiros, despachos. Entoavam cânticos, meditavam. Alguém leu que em culturas antigas, bem antigas, sacrificavam virgens, jogavam em vulcões. Não tinham vulcões e, quem era virgem tratava de resolver suas pendências pra não morrer. Mas eram boatos e um livro qualquer que desaparecera da biblioteca. E foi assim, por muito tempo. Por muitos dias, semanas, meses, anos, anos, anos.
Sabe-se lá o motivo, sabe-se lá quem ouviu, sabe-se lá o que aconteceu. Se era greve, se eram férias, se era redução na carga horária, se era caso de morte mesmo, se Deus, ou o diabo, ou lá quem, tivesse ouvido. Começo timidamente, o céu escurecendo devagarzinho, pontinha por pontinha, o azul que-não-era-tão-azul passou a ser incrivelmente-muito-azul e depois abandonou sua cor. Enegreceu, escureceu, reuniu todas e quaisquer nuvens possíveis, impossíveis, existentes e inexistentes. Não havia mais bordas amarelas da bolota amarela de luz amarela de calor amarelo. O chão deixou cada uma de suas rachaduras, fissuras, aberturas, foram emendando, juntando, intercalando, aplainando, formando um solo plano e, dizem até, que macio. E cresceu mato, mato, muito verde e amarelo e vermelho e grama e capim e flor e mais e mais mato.
Surgiram pequenos animaizinhos, médios animaizinhos, até, alguns poucos grandes animaizinhos. Orquestra de cigarras, gafanhotos, sapos, rãs, pererecas, passarinhos e sussurros e burburinhos vindos das árvores e demais plantas, que até então, pensavam não terem voz ou emitir qualquer tipo de som. Por alguns dias, caiam gotinhas, mínimas, quase inexistentes, algumas desaparecendo antes mesmo de tocar o chão. O calor cheio de mau humor e movimentação popular e maldição e tantas coisas mais, esquecido por completo. Mas aquilo, como exatamente você há de imaginar, vai levar a alguma conseqüência. Ou pelo menos é disso que eu e você desconfiamos. Diferente de qualquer uma das almas vivas e não-vivas e quase-vivas e quase-mortas que vagavam por lá.
Foram dias, semanas e meses de missas, festas, procissões, pronunciamentos, oferendas, cânticos em homenagem a sabia-se lá quem tinha realizado tal benção, fora comemorações em conseqüência do ocorrido. Dançavam, bebiam, comiam, transavam, gozavam, beijavam, amavam, riam, dormiam, nasciam, morriam e iam, iam, iam, iam, em meio ao tempo semicerrado, que cerrava cada vez mais, e as pálpebras do céu apertavam cada vez mais, matando os pontinhos do horizonte, cegando o planeta naquele exato lugar. Passaram os dias, as semanas, os meses, as missas, festas, procissões, oferendas, cânticos, homenagens, felicidade, empolgação, agradecimento.
Os animais desapareceram aos poucos e depois aos montes. Primeiro os animaizinhos pequenos, depois os médios, e por fim os grandes. E não havia orquestra, nem sussurros, nem burburinhos e muito menos qualquer tipo de som vindo das coisas que brotavam e viviam na terra, na água e no ar. As gotas que eram gotículas, aumentavam, eram pequenos ácaros aos montes de hidrogênio e oxigênio, que eram joaninhas, que eram besouros, baratas cascudas, mariposas, pássaros de moléculas gigantescas de hidrogênio e oxigênio, gotas, gotas, muitas e mais gotas, cada vez mais forte despencando do céu. Logo, o chão que era plano e, supostamente, macio, acidentou, formou poças e lagos e alagadiços e muita água.
Antes, em que reinavam os milhões de ventiladores, usavam as pás, e as peças e tudo mais pra substituir telhas partidas encharcadas, pra recolher e escoar a água, ou até mesmo pra construir canoas, pequenas e médias barragens, e roupas – supostamente – impermeáveis. A nova tarefa dos moleques, mais novos e mais velhos, era tentar afastar as nuvens pretas, que de tão-pretas pareciam, simplesmente, parte do céu, como se sempre estivesse por ali. Emendavam cabos de vassoura e cutucavam o céu, davam tiros com as armas de chumbinho. Os mais velhos passavam perto, abrindo buracos invisíveis a olho nu. Isso, quando não roçavam a ponta das gigantescas lanças improvisadas em pedacinhos quase imperceptíveis do éter enegrecido, ou seriam simplesmente partes da fumaça das fogueiras, de dentro das casas.
Cada milímetro-centímetro-metro-quilômetro de chão alagado-perdido era amplamente amaldiçoado. Rezavam novenas, terços, promoviam procissões. Faziam trabalhos nos terreiros, despachos. Entoavam cânticos, meditavam. Alguém leu que em culturas antigas, bem antigas, sacrificavam virgens, jogavam em vulcões. Não tinham vulcões e, quem era virgem tratava de resolver suas pendências pra não morrer. Mas eram boatos e um livro qualquer que desaparecera da biblioteca. Até então, sobreviviam e esperavam de todas as formas possíveis pelo retorno do sol. E foi assim, por muito tempo. Por muitos dias, semanas, meses, anos, anos, anos.
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