domingo, 24 de janeiro de 2010

Procrastinação

Não, problema nenhum. É até melhor, não tenho o que fazer em casa, lavar e enxugar pratos é tarefa pra amanhã, de manhã. Tá bom, então. Vai mesmo? Vou, vou.

A tal festa não era longe, umas tantas quadras dali. Chegaram lá, de moto. Os vizinhos não ligavam pro barulho, pra festa, algo de costume naquela casa. Os pais viajaram, a filha estava sozinha em casa. Sem mais explicações ou necessidade de rever certas coisas. Bebidas estocadas no fundo de seu armário. Ligou pra duas, três pessoas. O tudo estava feito. No total, mais de dez pessoas – só pela boca de uma das que havia ligado – o que daria, em média, vinte e poucas pessoas num mínimo, no máximo quantas coubessem.

Entraram, cumprimentaram alguns conhecidos, ela não parava olhá-lo. Beberam, riram, conversaram, ela não parava de olhá-lo. E por mais de horas tenham passado, a festa nem chegara ao seu auto de diversão. Casais – formados apenas na festa – amontoavam-se aos cantos, ou, bem, que cada um procura-se o seu. E seu carona - e amigo -, estava em algum canto, com a garota de olhos cor-de-mel - de quem se comentava frenéticamente.

A garota não parava de olhá-lo. Conversaram, enfim. Conversaram o bastante pra que fugissem ao quarto dela. E enquanto as línguas se abraçavam, ela o apertava pela cintura, passava as pernas por volta de seu tronco, mordia seu beiço. Fez com que caísse na cama. Ele, civil e piamente, detestou a idéia. Ela lhe tirou a camisa, ele preparou a camisinha, ela tirou o próprio sutiã, mordeu-lhe o pescoço. Penetrou-a, estava mais-que-molhada. E em quatro minutos de transa, e em gemidos mal audíveis em meio ao som e a outros gemidos, ela lhe acertou um soco no ombro. Normal, normal. Outro.

Normal, normal... E gemia, contorcia-se, batia mais e mais, mais e mais forte. E por mais que estranhasse, era algo esperado – até certo ponto. Cravou as unhas nas costas dele, que, civil e piamente, detestou a idéia. Apertou o cerco contra sua cintura, a penetrava mais forte e mais rápido, ela gemia mais e batia mais, mais, mais e mais forte. Normal (?). Normal. E o momento em que o rosto dos dois encontraram-se, olho no olho, fitavam um ao outro, ainda em transa, ela puxou do fundo da alma. Não, não, não um gemido.

Escarrou do fundo da garganta e lhe cuspiu o rosto. QUE CARALHO É ISSO? Ela repetiu, ele, sem reações quaisquer, entre tantas que poderia fazer, um tapa na cara, sonoro, vermelho, forte e aturdido. Ela parou, emudeceu o movimento cessou. Ela apertou-lhe o braço e gritou, ME BATE DE NOVO, PORRA. Como é?? E COM MAIS FORÇA, PORRA! E outra cusparada.

O suficiente pra jogá-la de canto e sair de pinto esvoaçante pela casa, recolher  chave, capacete, moto e sair rumo ao lavar de pratos. Seu carona que, quando precisasse, ligasse. Lavar os pratos: tarefa pra agora. Nunca deixe nada pra amanhã.

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