Não estávamos tão distantes do resto da cidade. Mas resolvemos sair um pouco daquilo tudo, que nunca parava. Que nunca pára. Certa distância, suficiente pra que nenhuma luz ofuscasse exageradamente alguma porra qualquer da noite. Fomos de carro até perto de uma linha férrea. Eu e mais cinco pessoas, fui ao lado do motorista, que esticou 120 km/h na estrada mais retilínea que eu já vira na minha vida. E eu não ligava, a janela estava aberta, os quatro do banco de trás conversavam sobre alguma coisa. O motorista sorria um sorriso débil, arrancava os dentes da estrada e costurava na boca. E além de não ligar, eu me sentia bem.
O motorista, meu primo, marcara com outras pessoas. Chegamos ao ponto ‘combinado’ e encontramos mais dois carros, e em sua maioria, estávamos ladeados por mulheres. E não surtisse total efeito a embriaguez da estrada, o ar estava gélido. Estávamos com frio e sede. Com correlações simples, o intuito da noite seria beber uísque vagabundo. O suficiente pra que palavras jorrassem abruptamente. Todos conversavam. Havia quem não soubesse o nome do outro, não lembrasse ou até não recordasse do próprio. Mas conversamos o suficiente pra espantar o frio, a suposta neblina e o frenesi da cidade.
E aquele bando de desocupados falava sobre tudo. Sexo, política, disco-voador, pornochanchadas, fenícios, porras loucas, música e coisa qualquer. E as duas garrafas de uísque sem rótulo passavam por todo o perímetro. Falei bastante, e assim idem a várias pessoas, um monte de baboseiras. Falado o suficiente, estiquei as pernas, perguntei se poderia matar o resto do uísque, consentiram engajados numa nova discussão. Ainda restava generoso meio litro de rispidez engarrafada. Enfiei-me no casaco, dei algumas goladas, observei outro trem passando. Ninguém lhe dava atenção. Decidiram sair, todos, sem mais nem menos, só sair.
Sem saco pra muita coisa, provavelmente, esperei o último vagão dos curtos e poucos passarem, guardei a garrafa num dos bolsos do casaco, corri e me segurei no vagão. Não, não estava rápido, mas não era lento o bastante pra ser deixado pra trás pelos carros. Nada de 120 km/h esticáveis. Agora eram mensuráveis cinqüenta, sessenta. As rodas titilavam contra os trilhos, eu os ouvia conversando, a noite estava silenciosa. Todos enfiados nos carros, alguns gritavam pra pular, entrar no carro e eu me importava em beber do uísque sem nome. O motorista percebeu, distanciou-se e acompanhou o trem em velocidade amena.
A neblina invadiu o nada e tornou-se tudo. Dissipada no silêncio, a mudez não existia. Por algum motivo estranho, era uma quase-bruma ruidosa, que calava o silêncio. Os faróis do carro piscaram algumas vezes, saltei do vagão. Terminei o último gole e abandonei a garrafa dentro do carro, agora parado. Fazia ainda mais frio. Os carros estavam distantes a mais ou menos dez metros uns dos outros. Casais prontamente formáveis e reformáveis, formaram-se na situação. Transavam em espaços nulos de bancos de carro ou vazios da neblina, em algum canto perdido. Amontoados aos gemidos, todos se espalhavam na madrugada.
Com uma garrafa de vodka na mão, eu conversava com o último casal fora de ação. Por pouco tempo. Não sabia quantas pessoas estavam ali, mas que de minha memória falhasse, ou alguém desfrutava de um belo, e supervalorizado – quiçá não merecer tanta digna fama – sexo a três. E minha curta relação de sinceridade com a neblina me garantiu o porre que ninguém alcançara naquela noite. Uísque vagabundo e vodka. Apertei os olhos e percebi algumas garotas conversando, sentadas no chão. Sentei no capô de um dos motéis e perguntei ao grupo totalitariamente verbal qual era o quarto de motel desocupado. E a garota morena, alta e embriagada me apontou o nada, caminhe em linha reta, sua voz macia e também morena, e vai encontrar o carro da gente. Quero só deitar, vai lá. Sem vomitar, ta? Combinado.
Tateando com a garrafa quase vazia, descobri o que parecia um chevy fodido e embrulhado na quase-bruma do interior de São Paulo. Deitei no banco de trás, ainda com alguns mililitros de sobriedade, e olhei pro céu. Ou o que seria o céu. Imaginava um céu salpicado de grãos de sal, lindíssimo, uma lua anoréxica e umas nuvens cinzentas e ranzinzas. E eu estava ranzinza, uma nuvem baixa dentro de um chevy perdido no meio do nada. Ainda ouvia os trilhos estalando ao longe, alguns gemidos, vozes, e uma busca pelo sentido da vida numa roda feminina de totalitarismo verbal.
E goladas adiante, já era dia. As horas estavam mortas debaixo do trem. Todos dormiam, minha cabeça latejava. Não pelo uísque, uísque vagabundo é milagroso, vodka de loja de conveniência não. É a parte destilada de algo russo que foi repatriado num canto qualquer. Cerrei os olhos. Abri novamente, com dificuldade. Percebi que alguém estava do meu lado, dormindo. Não, não estava dormindo. Acordada? Ah, não queria te acordar, você estava afundado num sono daqueles. Sei, obrigado. Ahm, nós..? Não, não, Ah, certo. A morena e a outra foram trepar em algum canto. Ah, sei. E as outras? Quem sabe? Sentei no capô e conversamos por uns quarenta minutos. E? Ah, eu reclamei do frio e você me puxou pra dentro do carro. E te abracei? Isso. Ah, agora eu lembro. Do que? Seu cafuné é uma maravilha.
E aquela garota dos cabelos azuis sorriu sinceramente. E demorou uns segundos até que eu notasse que o sorriso era meu. Beijou-me no topo da cabeça. O engraçado é que O que foi? Ah, o engraçado é que você meteu a mão por debaixo da minha blusa e me apertou contra você. Nossa, desculpa. Não, não, não com malícia Entendo. E agora eu sorri. Todos dormindo? Todos. Nossa. Eu estava com a cabeça apoiada no seio da garota. O cafuné recomeçou. E agora? Agora dormimos até que alguém resolva o que fazer. De acordo, mas O quê? Você vai parar com o cafuné? Nunca soubemos o nome um do outro. E ganhei outro sorriso. Não, não vou. Tarde demais, eu já estava de olhos fechados.
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