sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Conjunto.

Sentada num canteiro, observava o movimento dos carros e do resto das luzes da cidade que hora ou outra também se moviam. Era madrugada, mais precisamente 2h47 da madrugada, num lugar não tão aconselhável a uma garota ou qualquer tipo de pessoa, ainda mais sozinha. Mas não, não lhe aconteceria nada. Talvez esse fosse mais um dos avisos em frenesi, um tabu vivo, uma improbabilidade indistinta. O metrônomo do tempo batia pesadamente, e o mundo – grande músico desajeitado – quando perdia o ritmo, logo retomava os conformes harmônicos.

Os carburadores, os motores, as luzes neon, os painéis de vidro, as nuvens cinza-avermelhadas, os amores, desamores, o sexo, a violência, o sangue, o gozo, a gargalhada, o choro: a cidade acontecia. Inclusive nas alcovas, das alcovas. A luz dos postes deformava algumas cores, a escuridão, encurralada, quase não se fazia presente. Pulsação fótica, contínua, indispensável ao mundo humano. Pra frente e pra trás, tocando com os calcanhares no concreto do canteiro, divagava.

Balançava as pernas, terminava um café expresso (e médio) enquanto fazia frio. Com uma das mãos segurava o copo térmico, de plástico, com a outra fazia apoio à cabeça, olhando o vaivém sem um pingo de interesse. Alguns universitários bebiam no boteco da esquina, sexta. Boteco, não, não se pode chamar assim. Boteco, bodega, bar, festim, tudo fora de padrão e longe de seu sentido real, pensava. Seria digno desse nome caso lhe tirassem o frondoso letreiro inebriante, o segundo andar de madeira envernizada, as cadeiras luxuosas, os garçons de fraque, os copos personalizados, os advogados nas mesas. E por mais, faltariam os marinheiros, os endividados, os pracinhas, os desesperados e tantos outros. Claro, e meia dúzia de prostitutas à espreita.

Pousou o copo no canteiro, esticou as pernas. Lua minguante, céu sem quase nenhuma estrela. O que as nuvens não escondem, a falta que a escuridão faz, deixa de revelar. Só conseguia desenhar as três Marias e a cabeça de Órion. Os pés estavam por detrás do cinza, o resto nem se diz, muito menos se vê. Longe de casa sentia-se mais aliviada, mesmo que não se sentisse totalmente bem. O mundo não era seu, mas ela era do mundo. De um lugar que nem sequer sentia-se parte ou compreendia. Gole de café, quase no fim. Seu único ponto de conexão era aquela coisa, atirada no chão. Amarrou os cabelos. A sombra imitou. Por que teria de imitar tudo?

Levou o copo à boca, último gole, a sombra fez o mesmo. Talvez o café durasse mais sem a sombra pra lhe roubar goladas. A sombra parou. Ela também. Esticou as pernas, pôs-se a andar lenta, mas sentia-se pior, decepada, partida ao meio, quase vazia. Olhou de volta ao canteiro, sua sombra continuava ali, sentada e com as pernas balançando. Você não vem? perguntou ainda com a nota mental, louca. Mas a sombra fez que não ouviu. Ela atirou o copo vazio no chão, em direção à sombra. Desviando, levantou-se indignada e andou em direção à rua.

Ei! volte aqui, você pode se machucar, com notas mentais de louca. A sombra atravessou a manada de carros, dançou balé por entre os faróis que zumbiam, chegou ao outro lado. Ela saiu correndo, e por milagre não foi pega, uma alma caridosa parou, o resto nem aí. Volte aqui, não tenho a madrugada toda, notas mentais inconseqüentes. Você é minha, venha! A sombra disparou na calçada, movia-se furtivamente. A garota, atropelando algumas pessoas, corria em seu máximo, volte! A sombra fingia-se de surda, continuava correndo.

Chegaram a um beco, encurralada enfim! e riu jocosamente da própria sombra - mas algo a se saber, conhecer e lembrar-se dos becos, é o fato de ser um dos refúgios da escuridão encurralada - A sombra cresceu, transformou-se em gigante, em colosso, em titã, engolia a presença da garota. Assustada, decidiu reconhecer o erro, ao menos na falsa modéstia de uma sinceridade momentânea. A sombra percebeu as intenções – porque estas são coisas que a escuridão sabe ler – e cresceu, subjugou a garota. E até que retomasse a calma, estava dominada por medo daquela criatura imensa. Num súbito de pavor, percebeu que quanto mais recuava, a sombra avançava. Quando suas pernas tremiam, as do colosso também tremiam. A criatura ainda era ela.

Você pertence a mim! falou à sombra, que indecisa, estava entre o ataque e a fuga, tremulando de lado a outro, acompanhando luzes de uma ambulância que passava ao fundo. A garota acalmou-se, tinha agora uma expressão doce. Estendeu a mão, e eu pertenço a você. A sombra tocou sua mão e estavam juntas, abraçadas, ligadas. E, mesmo sem perceber, sempre estiveram de um modo misterioso. Decidiram tomar mais café – grande, que houvesse o suficiente para as duas. Atravessaram a imagem espelhada em sombras, a cortina de luz que separava o interior do beco, da verdadeira escuridão.

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