sábado, 30 de janeiro de 2010

As curvas das estradas de Santos.

Noite, como de costume de quase todas as vezes que saíamos. Debruçado sobre um balcão, sentado em um banco alto, ao lado de um amigo e “sua” possível garota. Estávamos na parte superior da casa de shows, um cover de uma banda qualquer se apresentava lá em baixo, no palco. Eu olhava pra um canto aleatório e perdido no meio daquela movimentação toda enquanto o vocalista gritava meia dúzia de palavras indistinguíveis. Fora nós três, poucas outras pessoas estavam ali, na parte superior. E por mais do som estar realmente legal, eu, mais uma vez, não estava prestando atenção. Som legal, né? Como? Som legal, né? Ah, claro, claro, e voltou-se a pra conversar com a garota.

A banda tocou por mais vinte e poucos minutos, eu fingia que escutava. Não. Eu não fingia nada, o som chegava a meus ouvidos, mas meu cérebro não fazia questão de captar a informação. De olhos semicerrados, por alguns instantes, eu observava mesas, pessoas, garrafas, lábios, palavras, luzes, homens, mulheres. E mais uma vez, as imagens chegavam aos meus olhos, mas meu cérebro não fazia questão de captar a informação. Meus pés imitavam, mecanicamente, o ritmo procriado pela bateria. Por vezes, eu acompanhava com os dedos, batucava de leve na madeira fria.  Quando a banda saiu, fui automaticamente despertado do transe. Aplaudi despreocupadamente, meu amigo riu.

Cadê a garota? Foi pra casa. Puxei o pulso dele e analisei o relógio. Já? Ah, sim. Topa viajar? Como assim? Não conheci essa garota agora e muito menos hoje, ela tem uma casa, uma galera vai. Entendo. Topa? Que horas sairíamos? Hm, amanhã, logo depois do almoço... Não quer saber pra onde vamos? Mas eu não aceitei. Santos. Sei. Esteja lá em casa às 13h, certo? Vou dormir lá, cara. Ah, verdade. Topa beber alguma coisa? Sei lá, vamos praquela mesa. Apontei uma mesa pré-determinada, quase ao centro do lugar. Nossa! nem tinha visto que eles estão aqui. Arrastamo-nos até lá, descendo as escadas encarapitadas da parede. Lex Luthor, o segurança de quase dois metros, nos cumprimentou sorrindo.

Não bebi naquela noite. Não o suficiente pra uma ressaca. O auto máximo fora um copo de cerveja, geladíssima. Uma das piores cervejas que existem. Mas estava geladíssima a ponto de seu gosto de qualquer porcaria aleatória ser relevável. Conversamos bastante, descobrimos que quase todos da mesa também iriam a Santos. Naquela época do ano, ninguém iria a Santos. Só um bando de gente desocupada e de férias. Dia seguinte almoçamos bem, juntamos nossas coisas e entramos no carro antes até do previsto. 11h40 e estávamos na estrada. Eu, ele, outros dois amigos e as quase-malas da viagem.

Chegamos cedo, ajudamos na limpeza. Minha repulsa fisiológica à poeira me garantiu outro tipo de serviço: carregador. Todos trabalhavam, faziam alguma coisa. E mesmo que não houvesse o que fazer, eu procuraria alguma coisa. Em algumas horas, exaustos e famintos, terminamos tudo. As garotas correram pra cozinha, macarrão. Macarrão para um batalhão: comemos bem. Os garotos ficariam no quarto perto da sala, enquanto as garotas dormiriam no quarto à direita do fim do corredor.

Bebemos e conversamos até que, um a um, foram se entregando a suas ‘camas’. Os remanescentes, inclusive eu, riam bastante. Decidimos por baralho. Com o passar do tempo, mais desertores da madrugada. Eu e mais outro cara, estávamos acabados. E por mais de se parecer, havíamos bebido mais, mas o esforço pesado, dos dois, carregadores, fez com o que o álcool não surtisse efeitos. Os outros estavam enterrados nas valas de seus colchonetes, no quarto. Alguns minutos depois, não conseguindo falar direito, acenou boa noite – ou bom dia – e arrastou-se pro quarto. Permaneci por mais uma hora com as garotas, jogávamos baralho e conversávamos. Chegou ao ponto do bom senso berrar com todo mundo, todos levantaram, foram dormir.

Abri a porta sem cerimônias, ninguém acordaria mesmo com uma chuva de tiros ao alto. O problema era exatamente esse. O quarto era de tamanho médio, mas eram homens demais. E desde chão, colchonetes, cadeiras, encostos e até beirada de janela, ocuparam todos os cantos possíveis e impossíveis. Fui até as garotas, pedi a garrafa de vodka, dei umas boas goladas. Fui atentamente observado por todos os olhos femininos, que não entendiam porra alguma. Muito menos eu. Levantaram-se e saíram da sala. E eu só queria deitar, relaxar um pouco. Meus ossos rangiam, meus músculos reclamavam até ao menor suspiro.

Arranquei uma das almofadas do sofá, me enfiei num casaco grosso e deitei no chão. Almofada de travesseiro, ao menos aquela... Péssima idéia. Encolhi-me junto ao sofá e cobri a cabeça com a almofada mais desconfortável do mundo. Senti algo suave segurando meu braço, Vem. Não precisa, estou bem aqui. Mentira deslavada, mas de qualquer maneira eu dormiria rápido. Não, não está, vem. Descobri a cabeça e uma loira de voz rasgada me chamou mais uma vez. Levantei-me, estiquei as vértebras imitando um gato. Segurando-me pela mão, ela me arrastou até o quarto, até o fim do corredor, à direita. Entrei e sentei-me próximo da porta, o sono ainda estava longe, apesar do cansaço. Conversamos por mais um bocado.

A dona da casa me apontou um espaço próximo à janela, contei duas camas e alguns colchonetes. No tal lugar havia um colchonete. Não havia tempo e nem sentido pra qualquer racionalidade, engatinhei até o canto e me estirei na cama. Conversamos mais, pedi a garrafa de vodka, dei outra golada. Era vodka diluída, só pra esquentar. Mal funcionava direito, o melhor seria sua pureza representativa. Elas riram, concordaram depois de dar, cada uma, um gole. Senti uma mão me afagando os cabelos. Olhei pra cima e percebi que havia uma cama ao lado de onde eu estava - no colchonete. Sem ao menos dar atenção, a garota loira que me recolhera da sala continuou com o carinho, conversando com as outras.

Conversamos até que a garrafa esvaziasse. Nesse ponto, de dois, três minutos até então, a temperatura caiu significativamente. Fomos todos dormir. Menos eu. O frio me corroia os nervos, cada um deles. Notei que a porta estava entreaberta e que faltava uma das garotas. Bom, ela volta. Virei pra parede fria, enterrei-me num lençol fino e me encolhi apertando o casaco de lã. Apesar do frio, eu estava exausto. Não queria incomodar – mais ainda -, resisti ao frio no máximo do possível. Tentei manter meu corpo inerte, mas minha força de vontade tinha o limite da exaustão, então ainda tremia.

Quase pegando no sono ouvi a porta fechar devagar. Senti que alguém estava aproximando-se, senti os passos no chão. Ouvi uma voz suave, ta acordado? To sim. Percebi que aquela era sua cama. Ah, droga, quer que eu levante? Não, não. Eu falava arrastado na tentativa de esconder o frio. Frio? Um pouco. Ela virou meu rosto e notou meus lábios meio rachados, meio azulados. Nada de dar uma de machão, ta? Nem entendia o sentido daquilo, consenti com a cabeça e fechei os olhos. Ela se enfiou por debaixo do lençol, lançou um cobertor mais grosso por cima e me abraçou por trás. Virei devagar e lhe dei um beijo na testa. Obrigado, eu tava morrendo de frio. Me apertando mais ainda, me virou por completo e fez com que encostasse a cabeça em seu ombro. Desse jeito eu quero desencalhar uma baleia amanhã, só com os braços. Ela riu. Dorme. E eu dormi.

Dia seguinte acordei antes de todos, com algumas dores nos braços. Preparei café, mesmo com a dificuldade de achar canecas, xícaras e pó. Levei até o quarto das garotas, acordei uma a uma e agradeci. Fui até a praia, caminhar, sozinho. Conheci uma garota, demos uns amassos por detrás de um posto abandonado de salva-vidas. À noite, durante outra sessão de baralho, um dos rapazes brincou, disse que eu era o maior garanhão do universo, ou o maior viado. Tentei explicar, argumentei sem graça, Não aconteceu nada. Nada? Ah, eu dormi. Só dormiu? E a garota de olhos azuis, que dormira comigo, bateu o jogo. Não só isso. O quê, então? insistiu um dos rapazes. O quê, o quê?

Desencalhou uma baleia com as mãos.

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