quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A proposta.

Reservas feitas e confirmadas. Com certo esforço comprou aquele anel, com o qual faria a proposta. Não qualquer, claro. Seria A proposta – com todas as letras enfatizadas e batizadas por um grande artigo, digno de representação corporal. Seria ali, no cais onde haviam dado o primeiro beijo. Ensaiou a noite toda – claro, não conseguira dormir, tamanha a ansiedade. Seria uma surpresa. Marcou o lugar e a hora. Tomou um banho demorado, vestiu sua melhor roupa e portou em face, aprumado e encantador, o melhor sorriso que houvera de dar.

Ao sair de casa, notou uma enorme lua amarela que o observava de longe. Entrou no carro e lentamente foi até seu destino. A lua o seguiu por todo o caminho, observando seus movimentos na distância da noite. O rapaz chegou ao cais, saiu do carro, caminhou em direção a uma garota. Deu-lhe um longo beijo. Entraram no restaurante e jantaram, e riram, e comeram e beberam. No fim da refeição, ambos foram até o cais, observados pela lua amarela, agora escondida por entre as nuvens. Tingia-se aos poucos de um vermelho ciúme, leve cor de rubi. Nuvens escuras e pesadas encobriam sua cor e parte de seu brilho.

O coração do rapaz batia acelerado. Batia mais forte. Sentia como se, em galopes, o coração fosse lhe trair o peito e correr até não poder mais. Respirou fundo. Controlou seu corpo trêmulo – como pôde. A lua de tom vermelho-sangue pairava no céu. Enfiou as mãos no paletó até alcançar a pequena caixinha. As estrelas piscavam no céu, com intervalos semi-definidos. A garota arregalou os olhos. O rapaz puxou lentamente a mão cerrada. Dois marinheiros bêbados caminhavam ao longe, do outro canto do cais. A lua enterrou-se nas nuvens. O mundo parou.

Quer casar comigo?

As estrelas piscaram e permaneceram em seu brilho. A lua esgueirou-se por detrás das nuvens. A garota disse não. Explicou que havia outro e que estava grávida.  O mundo tornou ao movimento. Os velhos embriagados cantavam alguma música do alto-mar. A brisa machucava a areia fina, as ondas rastejavam devagarinho até a costa úmida. A garota levantou-se e foi embora. A lua saiu aos poucos de sua cobertura. As estrelas piscaram lentamente.

O rapaz continuou ali, sentado no cais, embora sozinho. Ao menos era o que pensava. Pensou em jogar o anel fora, mas não o fez. A lua, branca piedade, aproximou-se do rapaz. Demorou a ser notada mais uma vez. Assim que o rapaz olhou com seus olhos tristonhos, a lua envolveu-o em seu brilho branco-abraço. E não havia dúvidas. O rapaz estendeu a pequena caixa.

Sim, sussurrou a lua. Sim.

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