Trabalhava naquela repartição por dezessete anos. Fazia tudo de forma automática e sem que houvesse necessidade de concentração ou atenção exagerada. Pessoas iam e vinham, mas ele continuava ali. Não era um bom trabalho, mas não reclamava. Era fixo e, em suas próprias impressões, satisfatório. O salário era razoável, suficiente pra manter-se. Mas, sinceramente, não se sentia bem com aquele lugar. Na verdade não se sentia bem em lugar nenhum. Observava detalhes de tudo que o rodeava, analisava as situações de todas as formas, mas não conseguia sentir-se de maneira diferente.
Observava o relógio de grandes ponteiros negros, pendurado na parede. Aplicava uma força descomunal através da concentração, tentando dobrar o tempo, avançar alguns instantes. Era algo com que se distrair até o horário do intervalo. Com o costume de seus dezessete anos de trabalho, conseguia concluir o serviço rapidamente e de modo correto. O aviso do almoço soou. Ele muniu-se do sanduíche que trouxe de casa e se esgueirou sorrateiramente por entre os corredores, pra almoçar sozinho em um quarto do almoxarifado. Sentiu vontade de tomar café.
Abriu a porta e deparou-se com o interminável vazio. Não que estivesse deserto, mas não encontrava companhia ali. Eram todas máquinas orgânicas, de derme inconsistente e fria. Em face, estas carregavam máscaras que permitiam, de forma total, apenas a respiração. O ver, ouvir e sentir eram filtrados por propriedades semipermeáveis indefinidas daquela falsa derme. Para ele, eram máquinas frias de raciocínio calculado e pré-determinado. Sentia-se só. Não só na repartição, mas no resto do mundo, onde seres de pele fria e rija caminhavam de um lado ao outro.
Enrolou as mangas da camisa caqui até o cotovelo. Afrouxou a gravata, respirou fundo e cruzou todo o caminho até o desejado destino, a máquina de café. Como não conversava com nenhuma daquelas máquinas orgânicas, pegava-se por muitas vezes conversando com o caixote de café expresso. Comentava sobre futebol, problemas pessoais e tantas outras coisas. Brincando, já lhe convidou a um jantar em sua casa e, no dia seguinte, queixou-se delicadamente, inquirindo o porquê da falta ao compromisso. Ria baixinho, mas de fato, aquela era uma ótima companheira de trabalho. Não se sentia mal por isso. Mas, às vezes, sentia falta de uma resposta além do monossilábico apito de que o café estava pronto.
Final do expediente, tarde da noite. Era o único ali, ainda trabalhando. Em verdade, sentia-se melhor ao trabalhar completamente só, com a luz de seu cubículo acesa e todo o resto apagado. E observava pela janela. Observava a noite que se derramava sobre a cidade, com grossos pingos de uma tinta escura, de um tinteiro invisível e tão imenso que conseguia cobrir todo o céu.
Foi até sua companheira, cumprimentou-a de forma breve. Procurou no fim dos bolsos até achar uma única moeda. Conferiu seu valor com o tato, segurou-a entre os dedos e de forma rápida, inseriu-a no lugar correto. Fez sua escolha, apertou o botão e esperou alguns instantes. Ela não respondeu com seu típico monossílabo. Ele apertou algumas vezes o botão para que a moeda fosse retornada. Inseriu-a novamente, repetiu o processo, mas dessa vez escolheu outra opção. Chocolate ao leite; apertou. Algum tempo depois a máquina estremeceu e entregou-o um copo com leite. Leite puro e quente. Ele então se afastou chateado daquela máquina, que, no final das contas não era diferente de todas as outras criaturas: uma máquina. Não suportava leite, mas tinha de bebê-lo a fim de evitar o desperdício da bebida e do dinheiro.
Por alguns dias não bebeu mais café. Sentia-se traído. Por necessidade de desabafo, porém, retornou ao mesmo corredor onde jazia aquela velha conhecida. Aproximou-se com uma postura séria, um olhar sério, um jeito sério. Depositou uma moeda. Escolheu café simples e sem açúcar, a mais barata das opções. Apertou. A máquina estremeceu como da vez passada, mas com um jeito de vida. Soltou inúmeros ruídos, apitos proparoxítonos, rosnados paroxítonos e sinais em sua tela, mas não apresentava mais aquela existência monossilábica de dias atrás. Ela então o entregou o maior copo disponível, com café adoçado, chocolate, leite e até creme. Surpreendido e arrependido, ele aproximou-se dela.
Sussurrou-lhe algo ao ouvido. O painel da máquina tomou a cor rubra nas bordas. Ele, então, repetiu o que havia sussurrado. Não se preocupe. Todos cometem erros. O importante é que somos diferentes de todos os outros. Ela estremeceu de leve, soltou alguns ruídos incompreensíveis e lhe bufou um pouco de ar quente na mão. Ele então voltou ao trabalho, esperando ansiosamente o horário do almoço, onde poderia contar à companheira sobre tudo o que lhe aconteceu nos dias em que se manteve ausente de uma conversa humana. Humana. Porque estavam, os dois, rodeados por máquinas orgânicas, com suas dermes semipermeáveis de rija e fria consistência inexata.
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