quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O lixo da rainha.

O sol esgueirava-se lentamente por trás da grande Ponte, fazendo pintar-se em uma obra de arte distante e ao mesmo tempo, presente. Grande parte dos londrinos, que precisavam sair cedo de casa, já estavam nas ruas, num ritmo próprio e único da capital inglesa. Os bondes, trens e automóveis rodavam nas ruas frias e o céu explodia sobre as cabeças, num cinza tímido, da manhã britânica. O gigantesco relógio badalou algumas vezes, como se estivesse empurrando com a palma das mãos todos os atrasados, vagarosos, preguiçosos. Alguns distritos lotaram completamente, enquanto outros cederam espaço ao buraco negro da habitação humana: nem mesmo um suspiro no meio das ruas. O vento trombava com as placas, cortava as avenidas e se distanciava de seu percurso originalmente definido.

Era, como em todas as manhãs, uma rotina comum em Londres. Escola ou trabalho ou casa ou qualquer outro lugar. Tudo seguia seu curso natural, num formigueiro ilhado e orquestrado. O barulho dos calçados nos ladrilhos, dos cochichos nos metrôs e dos trilhos trincando suavemente. O distrito real funcionava da mesma maneira como fazia todos os dias. A Rainha, lentamente, observava a presença do sol pela vidraça do Palácio. Tudo corria normalmente. Ou ao menos, era o que se pensava. O serviço especial do Palácio movimentava-se aflito e rapidamente. Um escândalo! O sol, que tudo vê, percebeu a confusão em Buckingham. Estendeu seus longos tentáculos, apoiando-se nas beiradas, frestas, expressões, espelhos e onde mais possível. A notícia espalhou-se. O céu deixou seu cinza tímido e permitiu escaparem as nuvens até o distrito real. E agora? O que fazer?

Procurou-se no aposento real. Depois em todo o Palácio, no distrito, na região. Em poucos instantes, a busca estendeu-se por toda a capital. Anúncios na TV explicavam o ocorrido e ofereciam uma gorda recompensa, com direito à condecoração da própria rainha, que continha seu desespero de forma magistral. A Inglaterra inteira estava na busca. Aquilo poderia estar em qualquer lugar da grande ilha britânica. A própria madre-real fez um comunicado, comentando sobre o ocorrido e enfatizando a importância daquele ilustre objeto. E repetia significativas e inúmeras vezes: essencial! Os dias passaram-se. Logo uma semana. O anúncio (com recompensa e discurso real) estendeu-se à Europa, depois ao mundo. O mundo todo estava na frenética busca.

A rainha, que não era de assistir televisão, precisava manter-se informada. Os jornais e informativos não falavam de outra coisa. Muitas pessoas largaram seus empregos para que a busca fosse mais satisfatória. Muito dinheiro foi gasto com detetives e investigadores particulares. Conflitos entraram em trégua momentânea. O sol brilhava mais forte que nunca, tentando talvez, encontrar alguma gama reluzente daquilo que se encontrava perdido. Em vão, porém. A única semana transformou-se logo. Eram duas. Três. Até que se formou um mês. Feito loteria acumulada, a recompensa aumentava paulatinamente. O mundo havia parado, enfim. A recompensa já não era tão importante, mas encontrar aquele objeto e o retornar a sua legítima dona: a rainha da Inglaterra. A comoção mundial era inegável. A rainha, mais do que debilitada, entrou em seus aposentos. Sentou-se na cama e ligou a modesta televisão. Mudou os canais em busca de algum informativo, até que se deparou com o noticiário brasileiro, da rede mundial de notícias. Ativou o tradutor em legenda.

“Receita Federal Brasileira encontra mais 25 contêineres com lixo inglês em Santos. Dentre CDs, peça de computadores e dos mais diversos tipos de lixo tecnológico foi encontrada uma coroa com um enorme rubi. A peça tornou-se motivo de disputa entre os catadores e urubus da baixada Santista.”

Oh my God! Gritou a rainha sem coroa, num misto de desespero, alívio e surpresa.

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