sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O máscara de ferro

Sua vida fora garantida por uma enfermeira. De forma clandestina, claro. Sua mãe – a enfermeira – havida sido violentada por um dos oficiais da ordem especial. Apenas os bebês perfeitos ganhavam o direito à vida. Sem deformações físicas e com progenitores de físico e intelecto superiores: bebês perfeitos. Aquela enfermeira não tinha o direito da vida, de forma alguma. Ela possuía uma doença degenerativa muscular na mão esquerda, o que a tornava falha e descartável. O pai possuía certa paralisia facial desde o nascimento. A ordem dada pelo alto panteão militar e governamental era o de exumar e exterminar qualquer traço de defeito à sociedade, no intuito da evolução humana.


Uma criatura como ele não poderia permanecer viva. Não poderia. Mas permaneceu. Sob muito custo e sacrifício de sua mãe, que foi expulsa da ordem médica. Ordem de fuzilamento, inconcluso, porém. Ela havia desaparecido de repente, antes mesmo de sua captura. A memória daquele homem tratava de chamá-la apenas por ‘a enfermeira’. Nunca soube o nome de sua progenitora, muito menos o de seu pai. Era um filho bastardo da humanidade e da Alemanha.


Trinta e dois anos haviam se passado, mas tudo continuava na mesma linha. Agora, porém, a limpeza genético-social atingira um novo nível: a limpeza étnica. E a sociedade clamava pelo ser humano superior, pelo homem imbatível e perfeito. Pelo super-homem. Stálin, na União Soviética, tratou daquele assunto por um só e de uma só forma: fascismo; ordem de prisão e execução imediatas. Só o modelo Alemão permanecia forte, defendendo a supremacia daquela idéia. Ele, produto falho de uma linha de produção começada a tantos anos atrás, era uma exceção.


A doença genética da ‘enfermeira’ só atingia o sexo feminino, e, a doença de seu desconhecido pai, havia garantido paralisia emocional, inviabilizando a demonstração de qualquer sentimento através da face. Mantinha-se sério. Durante momentos de tristeza, mantinha-se fechado. Durante o desespero, mantinha-se firme. Durante a solidão, mantinha-se trancafiado em si mesmo. Ficou conhecido como “O máscara de ferro”. Um dos mais temidos oficiais do exército funcional da elite alemã, a Schutztaffel, conhecida como SS. Aos poucos alcançou um dos cargos mais desejados: subcomandante-chefe das forças especiais. Reportava-se somente ao comandante-chefe e ao próprio Hitler.


Por ordens, comandou alguns pelotões para a execução de algumas crianças imperfeitas. E suas mães, claro. Até então, estava tão envolvido com aquele mundo no qual estava que havia esquecido por completo sua história. Nada de sua infância, muito menos de sua origem demonstrava-se excepcionalmente ativa em sua mente. Fragmentos eram decompostos em pedaços cada vez menores e espalhados no turbilhão de sua memória. Simplesmente, era outra pessoa. Um homem implacável e cruel.  Era de fato, o melhor para qualquer tipo de serviço, especialmente aquele.


Reuniu alguns homens, deu-lhes as instruções de forma clara e objetiva Seguiu até os bairros determinados. Conforme os ponteiros moviam-se interminavelmente, os soldados realizavam o serviço. Impiedosamente, realizavam seu serviço. Ele tinha o hábito de participar das ações e investidas. Apesar do caso não apresentar algum tipo de confronto ou batalha, propôs-se a por as mãos na massa. Batia de porta em porta, nos endereços fornecidos pelo serviço médico de Berlim. Quando não atendido, seus ajudantes derrubam a porta a pontapés e a missão, então, era cumprida.


Última casa, batidas na porta. Ninguém atendeu. Em voz alta, o subcomandante, impaciente, ordena que a porta seja aberta. Sem que seus homens tivessem tempo de reagir, o homem afastou-se alguns passos. Levantou sua longa perna e com um único chute rompeu a madeira envelhecida da porta. Seu coturno tocou o chão como em um baque ecoado e titânico. Estavam no chão a mãe e a criança, em seus braços. Ele sacou sua pistola e caminhou até ambos. Percebeu que a mulher, senhora de idade, carregava algo nos braços. Não, não era uma criança. Não havia criança alguma, era apenas um cobertor encardido e velho, assim como o aspecto de quem o segurava, pensou.


Os olhos de ambos encontraram-se. A mulher arregalou os olhos e, em uma pequena fresta, abriu a boca. Um de seus braços estava jogado ao chão, como parte independente do resto do corpo. Estava morto e tombado no chão. O homem, então, deu-lhe um tiro certeiro na cabeça. O corpo da senhora tombou ao chão de madeiras podres. E a pequena manta em seus braços escorregou até o coturno daquele homem. E a cruz vermelha encardida arrancou a máscara de ferro daquele menino, o filho bastardo da humanidade. O filho bastardo da Alemanha.

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