terça-feira, 11 de agosto de 2009

Caso de paternidade

Inicialmente, acharam que aquilo tudo era algum tipo de brincadeira. Por receio, tiveram de verificar a autenticidade do documento. Era algo esdrúxulo e estranho, mas real. As primeiras palavras escritas do lado externo do envelope entregavam completamente a situação:

INTIMAÇÃO. Intimamos vossa senhoria a prestar contas no julgamento que ocorrerá dia oito, próxima quinta.

E o comparecimento era obrigado por lei, claro. Todos os destinatários da intimação deixaram suas humildes residências, nos confins mais densos de onde estivessem, para prestar presença ao tribunal, no tal julgamento, que ninguém entendia direito. Aos poucos, todos os lugares foram preenchidos. Casa cheia. Lotada, na verdade. E ninguém ainda entendia direito o que se passaria ali, ou o motivo de tudo aquilo.

Ao lado esquerdo, amontoavam-se os membros da comunidade de onde provinha a “vítima”. Dentre eles, índios, professores, pesquisadores, pescadores, médicos, curiosos e bêbados. E ali, estava também a família da vítima, pai, mãe, irmãos, tios e cachorro. Ao lado direito, enfileirada na maior diversidade já vista antes, estava a comunidade de onde provinha o “acusado”. Dentre eles, sacis, lobisomens, mulas-sem-cabeça, o Uirapuru, a Cobra Grande, a Cabra Cabriola, a Caipora, o Boitatá, a Curupira, a Mãe D’água e tantos outros, inclusive a esposa do acusado. O juiz adentrou no recinto. Todos de pé. Em voz alta é iniciada a sessão daquele julgamento.

INICIADA A PRIMEIRA SESSÃO DO JULGAMENTO POVO CONTRA O SENHOR BOTO - COR-DE-ROSA, POR ACEITAÇÃO EM PATERNIDADE. O JUIZ, EXCELENTÍSSIMO ALFREDO PAULO RODRIGES, ENCONTRA-SE NO RECINTO, NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DA ALTA AMAZÔNIA.

Podem sentar-se, ordenou o juiz. Os advogados cumprimentaram-se e cumprimentaram o juiz. Cada um em seu lugar e o julgamento finalmente iniciou-se. O advogado de acusação, um homem alto e magro, apresentou os fatos e em seguida as provas. Tomou certo tempo até que toda história fosse posta diante do júri. E então, sem mais o que apresentar, Luiz concluiu a abordagem dos fatos. A advogada de defesa subiu até o palanque e fez suas considerações sobre o caso, Apresentou a história de outra maneira e demonstrou provas de um álibi. A advogada, alta e corpulenta, com enormes olhos amarelos de serpente, uma gigante cauda espinhosa, garras compridas e um grande focinho de jacaré, apresentou os fatos ao júri e ao juiz. Terminada a longa abordagem, a Cuca, concluiu sua apresentação.

Testemunhas chamadas. Desde os pais da moça, a própria moça (a vítima), a esposa do Boto - cor-de-rosa, amigos e familiares, havia certa divergência na estória. O tempo passou e nada foi decidido. Júri indeciso, sem entender muito dos fatos. O mesmo por parte do juiz. Depois de horas de intenso bate-boca, durante dias e mais dias, houve novamente a apresentação dos fatos com conclusão dos advogados. Luiz contou a história lentamente, sem pressa alguma. Esta pobre moça, de família respeitada e conhecida em sua comunidade foi abusada de jeito cruel pelo acusado. Foi seduzida, aliciada e engravidada pelo mesmo. Sete meses atrás, em uma noite igual a essa, o senhor Boto - cor-de-rosa deixou sua moradia, no rio Amazonas, transformou-se em um rapaz com o intuito de seduzir e ter relações com uma moça qualquer. Que, nesse caso, foi essa pobre coitada. Resultado? Engravidou-a! E quando inquirida sobre quem havia feito aquilo, a pobre moça, aturdida, revelou o nome do acusado, que está aqui, diante de vocês.

Cochichos por toda a parte. O pesado martelo do juiz bateu algumas vezes, comandando ordem. Silêncio restaurado.

A Cuca dirigiu-se à frente dos jurados. Limpou a garganta, grasnou de leve, balançou o rabo. Boto - cor-de-rosa. Criatura de bem, fiel, pai de família e respeitado por todos nós, foi trazido a julgamento através dessa piada por pessoas sem fundamentos morais ou éticos. Por uma conhecida estória, uma ladainha, uma peripécia dos costumes, o Boto foi acusado de um crime, do qual é totalmente inocente. E provo através de um álibi inegável: na noite em que a moça disse ter relações com o acusado, o rio estava durante a Pororoca! Ou seja: impossibilitando a saída de qualquer criatura do rio! A moça teve relações com um rapaz qualquer e, como de costume aqui na Amazônia, botou a culpa no acusado. O filho então é de quem? “O filho é do Boto”. Reflitam sobre isso, que, torna-se inclusive, um caso de preconceito.

Cochichos por toda a parte. O pesado martelo do juiz tornou a castigar o ouvido de todos. Ordenando silêncio. Silêncio mais uma vez restaurado.

Horas passaram-se. O júri enfim decidiu o que havia de ser feito. O juiz concordava totalmente e, assim foi feito: esperar até que a criança nascesse. Assim, através de semelhanças visuais, teriam ali o veredicto. O tempo passou.

Contrações, chororô, gritaria, chama a parteira. Parteira na porta. Inicia-se o parto. Parto complicado e demorado. Tempos depois, Josefa, parteira lendária daquelas bandas, aparece pra dar a notícia à multidão do lado de fora da casa. Todos se amontoavam, mais uma vez.

Se é filho do Boto, não sei. Mas nasceu pulando numa perna só e pedindo uma cachimba com mato pra fumar. E o tribunal supremo da Amazônia presidiu, no dia seguinte, duas sessões:

Pensão alimentícia e divórcio do saci.

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