segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Indignação.

Antes de qualquer coisa, quero despojar e prestar aqui, em tal documento, minha sincera rejeição ao estado em que me encontro. E este documento é o testemunho renitente de tudo e mais um pouco do que se passa e se passou. Sendo realmente sincero, simples e resumido: última coisa da qual recordo bem, antes de me sentir assim, dessa maneira diferenciada, foi ter dado umas goladas no litro de pinga. Depois o mundo deu umas piruetas, tentei acompanhar seus passos e minha última visão foi a calçada. Daí em frente foi tudo uma loucura sem maiores explicações.  Primeiro vi umas moças com cara de horror, uns moleques correndo assustados e outros tentando me ver. Mas, ué, de duas uma: ou a tal queda havia sido muito feia a ponto de eu ter quebrado alguma coisa ou o litro de pinga estilhaçou e o tal líquido melou minha calça a ponto de parecer com outra coisa. Mas, como sei que mijo não causa tamanha admiração num bando de gente desocupada, quanto mais um véio mijado, jogado no chão, tinha certeza que havia me machucado.

O pior de tudo é que ninguém acudia. Um véio jogado no chão, provavelmente machucado – não havia confirmado meu próprio estado – e talvez mijado de pinga, mas ninguém acudia. Esperei uns instantes e fiz cara de pobre. Ninguém resiste a uma cara de pobre. Apareceu um moleque e de prontidão me levantou. Ou tentou por umas vezes, até de fato conseguir. Senti as pernas moles, bambas, sem força nenhuma. Mais uma vez não conseguia atestar se era efeito da aguardente ou do efeito de tal queda. O povo continuava reunido, feito em tombada de carroça, desembestagem de boi, esculacho de puta. Mas era só um véio caído. Não mais, ao menos. Cambaleando, escorado no moleque – que aqui, por falta de prosa, resta-me chamar tal alma caridosa (ou interesseira) de Preá. Nada contra a figura do moleque, fora sua catinga de ovo, sua barriga exposta e as costas cabeludas, claro. – fui vagarosamente até a igreja. Pedir benção ao padre, antes de tudo, até mesmo de passar no médico ou de voltar pra casa.

Ao avistar Padre Tainha, com sua característica cara de peixe bufador, não me contive, tentei abaixar pra lhe pegar a mão e num beijo humilde pedir-lhe a benção.  Não é que Preá não me agüentou e poquei de cara no chão? Infeliz, nem ajudar direito sabe. Mas tem mal não, Padre Tainha me pôs de pé. Ambos me escoraram até a igreja, sentaram-me no banco. O padre fez uma reza rápida e escafedeu pra seu quartinho. Eu, sem entender muita coisa, dei por satisfeito e falei que queria ir ao médico logo. Preá pôs-me de pé, dessa vez sem muita dificuldade. Provavelmente o efeito da cana estava passando aos poucos. Ainda não sentia minhas pernas direito, mas, melhor que assim não sentia a dor também.

Rateando pela rua, fomos os dois, eu e o moleque, até a casa do doutor. O moleque me escorou no muro, gritou do portão. Não entendi bulhufas. Ao menos o doutor, de boa (ou má) vontade apareceu rápido. Com o famoso ar de importante e bobão, de acostumado, enjalecado,  enrustido, doutor Amaro fitou-me o corpo dos pés à cabeça. Olhou bem fundo nos meus olhos a ponto de que eu ficasse preocupado com a intimidade da consulta. Cochichou no pé de ouvido do moleque, escreveu umas bobagens numa folha encardida e entregou. Saber o que estava escrito, não sabia. Nem deu pra ver. O moleque me sacudiu a poeira do capote e se pôs ao carregamento, mais uma vez.

Eu, com cara de bobo, não podia ver um rabo de saia abanando pela rua que logo mandava um beijo estalado. A cana era forte. Era ao menos o que aparentava, já que a cada tentativa de beijo, eu vertia baba espessa e mais cara de bobo. Como bêbado normalmente perde a vergonha sob efeito do álcool, eu nem dava atenção praquilo. Preá me carregava e eu babava (mais-que-literalmente) em todo rabo de saia que espanava na rua. Perto de casa, meio que como se me conhecesse, Preá me ajeitou, sacudiu meu capote mais uma vez, me armou de chapéu na cabeça, limpou-me a baba com um lenço do bolso e bateu à porta. Jaquinha, fiel cadela da família a duas gerações (mais velha até que eu) atendeu ao chamado com um latido e três tossidas. Acompanhada pela presença humana da casa. Era espanto pra lá, espanto pra cá, cara de horror, corre-corre, fala-fala, grita-grita e até desmaiação. Ou eu estava muito arrumado, graças à atenção tenra e carinhosa de Preá, ou estava realmente mijado. Como mijo de véio não chama tanta atenção e dava tudo a entender que o moleque não havia caprichado tanto, era outra coisa. Mas o quê diabos?

O moleque entregou o papel do doutor. Todo mundo leu e releu e fingiu que leu, já que Batinha não sabia ler e Tia Bromélia não enxergava nem a luz do sol. E depois de todo mundo, eu pude ver o papel. Ele escorregou e bateu a cabeça na calçada, explicou de um fôlego só, Preá. Mandaram eu trazer ele pra cá. ‘Atestado de óbito’. Putamerda. Morto? Morto não tava. Iria ficar com fama de velhaco na bodega, por não ter pagado o litro. Morto não tava, de certeza. Tava travado de pinga, mas defuntado não tava. Ao menos era o que eu pensava. Até que me enfiaram numa caixeta e bateram uns pregos. Morto? Não sei. Mas o pior de tudo: nem me trocaram minha calça mijada. Como pode?

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