domingo, 23 de agosto de 2009

The Cure

Estilhaçando-se em mil pedaços, chamou sua atenção. O tubo de ensaio vazio que segurava entre os dedos, havia caído. Cessou sua versão de “Boys Don’t Cry”, assobiada bem baixinho. Olhou rapidamente para os cacos no chão, afastou-os com o pé e tornou a olhar ao microscópio, leu uma pequena folha de papel e observou uma foto que acabara de sair do aparelho a sua direita. Inacreditável! Fantástico! Não conseguia piscar. Verteu algumas lágrimas, limpou-as com o canto do jaleco. Abismado, sim, aquela era a palavra. Procurou alguma cadeira, banco ou apoio, tateou até encontrar. Sentou-se vagaroso no alto banco de plástico azul.

Deu alguns tapinhas em sua própria face. Não é possível. Não poderia ser possível, de forma alguma. Tornou a observar os resultados das anotações, a folha de papel e a foto. Sim, era verdade. Acabara de descobrir a cura daquela horrível doença que havia dizimado mais da metade da população. A depressão era o mal do século passado. Aquela horrenda peste era o novo mal, que não distinguia nada nem ninguém. Matava todos os tipos de animais em todos os locais do globo. Ganharia de certo o Nobel e entraria pra história. Não, não era o mais importante.

O mais importante era que tudo aquilo, todo o sofrimento, finalmente teria um fim. Limpou os olhos no jaleco, vedou cuidadosamente a lâmina da amostra. Guardou suas anotações, as fotos e a folha de papel com a fórmula. Era algo simples e, de tão simples, inimaginável! Impensável! Mas, era finalmente aquilo! Todos os pequenos ratos contaminados estavam curados. A lâmina estava parcialmente limpa do vírus, justamente onde aplicou manualmente o remédio, em proporções microscópicas. As anotações continham a evolução do medicamento: simples e totalmente eficaz. A foto dividia-se em três partes: o vírus antes da aplicação do medicamento; o vírus durante a aplicação do medicamento; o vírus destroçado, após o efeito do medicamento. Incrível!

Reuniu tudo em uma pasta, a protegeu dentro de uma mochila vedada, cuidadosamente segurou-a com as duas mãos. Projetou aquilo no futuro. Como seria? Como tudo aquilo seria desenvolvido? Pensou na possibilidade do uso comercial daquilo, do monopólio de algum país, do laboratório ou de alguma rede de pesquisas. Ficaria quieto, registraria o remédio em seu próprio nome e sob responsabilidade de sua esposa. Mas uma conspiração poderia silenciá-los, retirar o remédio de suas mãos e o utilizar como produto. Como método de lucro garantido. Um boom incrível da economia...

Não, poderia entrar com um recurso junto ao parlamento, obter direitos totais sobre o medicamento. Mas o parlamento poderia, em conclave, tornar aquilo como bem do Estado, confiscá-lo e... Não, não faria daquela forma. Projetou milhões de possibilidades, gastou a madrugada imaginando maneiras de tornar aquela salvação pública e gratuita. Que todos pudessem salvar-se. De todas as formas, aquilo se tornaria um produto. Sua descoberta, feita com tanto afinco, dedicação e carinho, com intuito de acabar com aquele sofrimento... Tudo seria em vão.

A minoria seria salva momentaneamente, as massas extinguir-se-iam gradativamente. O vírus sofreria mutação, a casta superior seria atingida e extinta. Com sua cura, poderia extinguir o vírus e impossibilitar sua evolução e mutação, já que o tornaria incapaz de reproduzir-se. Mas as ações em nome do lucro acabariam com o homem. E então? O que fazer? O que fazer?

Abriu a mochila, retirou a pasta. Abriu-a. Retirou do armário um frasco escuro. Despejou todo o líquido dentro da pasta, fechou-a. Agitou um pouco. Jogou a pasta no lixo, apagou as luzes, foi pra casa. No caminho ligou pra sua esposa, vamos morar naquela casa de praia, amor. Isso, aquela que tanto queremos. O frasco ainda jazia em cima da mesa, onde se lia “CUIDADO: HCl – Ácido Clorídrico”. A humanidade definhava aos poucos, porém, com tempo suficiente pra salvar-se de si mesma.

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