sábado, 22 de agosto de 2009

Nova velha infância

Finalmente teria o mínimo de tempo pra aproveitar sua nova casa. Era um novo lar velho, sendo mais exato. E sinceramente, ela não dava a mínima. Sentia-se bem. Sentia-se muito bem. Depois de tanto esforço, trabalho, horas-extras e economia, tinha um apartamento só seu. Construído no começo do século XX, não era suntuoso, não passava luxo e nem conforto. Mas era um lar. Desde que se mudara a trabalho para Nova York, morava de favor na casa de um amigo de seu primo. Apesar da insistência em afirmar que a presença de uma garota, ali, não era um incômodo, ela sentia-se mal por ocupar aquele espaço – que, devidamente, não lhe pertencia. Desde sua chegada, buscava sempre imóveis dos tipos mais diversos. O que lhe importava eram segurança e conforto individual. Não um tipo de conforto material, mas algo que pudesse aconchegar por debaixo das cobertas grossas de lã, tomar uma xícara de café e se sentir bem. Em casa.

O apartamento tinha lá seus encantos. Em um dos cômodos, jazia um baú antigo (provavelmente dos primeiros donos, dada a impressão pós-colonial recente), empoeirado e encardido pelo tempo. Fora incontáveis camadas de poeira e teias de aranha, a única presença incontestável ali, era o cheiro de mofo. Deu um jeitinho e o vendeu a um antiquário no Bronx, próximo ao escritório onde trabalhava. Não conseguiu uma quantia muito alta, mas ao menos se livrou daquele incômodo. Aproximar-se do baú era render as forças a um ataque de alergia, na certa.

Inicialmente mobilhou o lugar com apenas o básico: uma poltrona antiga, uma cama, duas cadeiras e uma mesinha de café. Aos pouquinhos adicionaria mais elementos ao conjunto. Era o necessário a sua vida no novo velho apartamento. Decidiu explorar cada pequena fresta, cada detalhe e pedacinho do lugar. Seria bom familiarizar-se com tudo, gravando todos os detalhes em sua memória. Deu-se conta da necessidade de algumas pequenas reformas a serem feitas. Alguns pregos a bater, um pouco de tinta e uma limpeza caprichada. Nada exagerado, nada que demandasse urgência ou preocupação extremada. Decidiu fazê-lo no feriado, duas semanas dali. Metódica ao extremo. Listou o necessário: uma lata de tinta média, um saco pequeno de pequenos pregos, um frasco de produto de limpeza e um martelo. Muniu-se em exatamente uma semana.

Acordou cedo com o intuito de realizar todas as tarefas, tendo tempo de sair com alguns amigos do trabalho. Seguiu a linha do assoalho, removendo os antigos pregos e os substituindo por novos. Com o passar dos minutos, comportava-se como uma mini-indústria, realizando a tarefa de maneira interrupta e em série. Remoção, limpeza, introdução, batidas, limpeza. Remoção, limpeza, introdução, batidas, limpeza. Sem maiores problemas, quase completando a volta do apartamento, sentiu um ponto solto.

Deu batidinhas com o martelo e ouviu o oco escondido. Certificou-se, toc, toc. Realmente oco. Interrompeu a linha de montagem e examinou minuciosamente o local. Retirou o pequeno prego, que, com um pouco mais de atenção, percebeu ser diferente de todos os outros. Puxou o pedacinho de madeira encardida e conseguiu soltá-lo. Retirou o isqueiro do bolso. Conseguira parar de fumar, mas não de manter um isqueiro por perto a todos os momentos. Iluminou o local, certificando-se que nenhuma criatura estaria ali, prestes a surpreendê-la. Identificou ao longe um pequeno objeto cúbico. Uma caixinha.

Uma caixinha de balas antiga. Retirou-a, limpou-lhe a poeira com o pano úmido, evitando o ataque de alergias. Notou um mínimo cadeado, grosso. Algumas batidinhas do martelo e conseguiu rompê-lo. Abriu a caixinha metálica, enferrujada. Notou um pequeno carrinho de madeira, com rodinhas de rolha. Um pedacinho de papel rasgado com alguns números, duas bolinhas de vidro, um botão lascado, um canivete de bolso velho e um pequeno chumaço de fios de cabelo. Removeu cuidadosamente cada item, anotou em um curto inventário, cuidando para que não perdesse absolutamente nada.

Ao fundo da caixa, após uma profunda inspeção, leu: Harrison Smith, Bartolomeu. Certamente o dono da caixa, com o nome inscrito a riscos do canivete agora sem corte. Foi até o criado-mudo, recém adquirido no Certain Antique, antiquário do Bronx ao qual havia vendido o baú. Abriu a segunda gaveta e retirou a lista telefônica. Harrison Smith. Era logicamente óbvio que o tal Bartolomeu estaria morto. Pôs-se a procurar algum descendente seu, que demonstrasse algum interesse na caixinha. Não era algo comum a se fazer, mas pensou durante alguns instantes. Se alguém achasse alguma lembrança de sua infância, gostaria muito que lhe devolvesse. Pôs-se à incessante busca.

Com certa dificuldade, encontrou três nomes. Ligou ao primeiro. Richard M. Harrison Smith. No, I’m english. Never lived in USA. Moved last week. My entire family is from London. (Não, sou inglês, nunca vivi nos EUA, mudei-me semana passada. Minha família inteira é de Londres.)
Ok, thank you.
Tentou o segundo número. Linha inexistente. Entre as ligações, tentou lembrar-se um pouco de sua infância. Na verdade não lembrava muita coisa. Na verdade não lembrava nada. Sentou-se no chão, levou alguns dedos às têmporas e pensou por algum tempo. Não entendia o porquê de não recordar-se de sua infância.

Não tinha fotos também. Seus pais nunca gostaram de fotos, por incrível que fosse. Não tinha fotos de sua infância. Não tinha recordações, histórias, brinquedos ou qualquer outra coisa do tipo. Recolocou o telefone em seu lugar, fechou a agenda telefônica. Levantou-se e guardou a caixinha na primeira gaveta, com tudo dentro, inclusive o recém criado inventário. Decidiu ligar para casa. Recolheu mais uma vez o telefone em suas mãos. Discou o número conhecido, posicionou o telefone ao ouvido e esperou um pouco.

Alô, mãe? Tudo bem com a senhora? E com o pai? Ah, certo então. Por aqui tudo bem sim. Fazendo um pouquinho de calor, mas fora isso, tudo normal. Liguei pra perguntar uma coisinha, na verdade. A senhora guarda algum brinquedo ou vestido ou algo do tipo que foi meu? Não? Nadinha de nada? Não, não, não se preocupe. Nada de mais, só curiosidade e saudade de vocês. Tá certo, mando beijo pra ele sim. Fica com Deus, tchau.

E agora? Não tinha provas nem ao menos de sua infância. Sentia uma pontinha de inveja do tal Bartolomeu. Retirou a caixinha da gaveta, analisou-a. Armou-se do canivete sem corte, riscou o nome ao fundo da caixa. Sem mais informações do dono da caixa. Observou o interior da caixa. Retirou o inventário, rasgou-o em minúsculos pedaços. Apesar da idade indeterminada daquelas lembranças, lembranças e recordações da infância de alguém, tomou-as como se fossem dela. Recolheu o tufo de cabelos na mão e recolheu ao pensamento que aqueles fios pertenciam ao seu primeiro namorado, desses namoricos de infância. Recolheu o canivete e era de seu avô, Bernardo, que morrera antes do aniversário de três anos de sua neta. Verificou os números do papel, indicando o número da rua de sua primeira casa.
Segurou com delicadeza as bolinhas de vidro, memorizando-as como parte de um brinco que sua mãe havia perdido muitos anos atrás. Retirou o botão lascado e percebeu que pertencia a camisa de seu tio Augusto. Adicionou um prego minúsculo à caixa e selou-a. Puxou a lista telefônica, rasgou a página marcada e pôs fogo. Olhou atentamente para a caixinha. Aquela era uma nova velha infância. Aconchegante. Segurando firmemente sua infância com uma das mãos, utilizou a outra pra realizar uma ligação.

Alô, mãe? Sou eu de novo. Encontrei as bolinhas do seu brinco. Que brinco? Ah, aqueles azuis, não lembra?

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