domingo, 28 de fevereiro de 2010

Boitempo

Brota o violão danado, por detrás da antes madrugada. Da madrugada de tantas coisas, tantas coisas, e ainda há um dia por passar. Violão danado. Baden Powell arrastando Chuva, de Durval Ferreira e Pedro Camargo. Como coleção de espectro, claro. Não empunharia outro violonista sequer ao lado do mar, ao lado do bronze. Não, não. Fica bonito, mas por demais exagero, lirismo, essas coisas. É o Rio. Rio de Janeiro, daqui a pouco vai ficar quente pra cacete. Em frente à Rua Rainha Elizabeth, calçadão de Copacabana. Daqui a pouco um calor daqueles. A praia pita o cachimbo de maresia e solta a fumaça de areia. O mar faz barulho gostoso no cangote da manhã. O sol nasce. Isso, isso. Sem violão, só bronze e os carneirinhos pulando no alto das marolas. “No mar estava escrita uma cidade...”.

O povo passa, o tempo passa. Sol cor de cenoura. Não, desistiu. Sol cor de Rio, Rio de Janeiro. O povo passa, olha. Tanta gente tira foto, conversa, faz carinho, resmunga. Até de lhe pintarem o bronze da roupa, já fizeram. Crápulas. “No mar estava escrita uma cidade...”. Bom que até lhe arrumaram um par de óculos novos. O grau aumentou. Coisa da idade, coisa dos olhos. De pernas cruzadas, no banquinho, e de costas pro mar. Como se o mar carregasse o espectro de tanta coisa, tanta adivinhação, tanta aporrinhação. E violão danado. Talvez que no Garota de Ipanema, no hall dos espectrais, desçam uns pileques vendo as meninas passando. Violão danado, mudinho, mudinho. O mar é rapaz esperto, sabe de fazer agrado no cangote da manhã, da tarde, da noite. E ele, de pernas cruzadas, olha do bronze, toda moldura do calor. Bem que eu disse, que calor!

Pois que bem, tudo de passar. O povo passa, o tempo passa. O bonde passa cheinho de pernas. Pernas mulatas, branquinhas, pretinhas, amarelinhas, morenas, adocicadas e amarguradas. Pois que bem, pedido de casamento já feito, e por conta de testemunha prévia, ele do alto do bronze, espiava tudo – e ainda espia – de sorriso contido, de olhar perdido (que a tudo espia). Passa moleque, que crente de sabido ou não, engraxa os sapatos. Brilhandinho. Precisa pagar não, seu moço. Por conta, por conta. Sorriso contido, as conchinhas imaginárias da calçada de Copa flutuam no chão. E no banco, do lado, te amo, também, casa comigo, caso. E alemão, português, espanhol, japonês, e até o brasileiro que ainda não é do Rio. Fotos, fotos, fotos, sorriso contido. A cidade continua ali, escrita no mar. Mar danado, safado, cheio de cheirinho pra cima dos cangotes. E o cachimbo de maresia que nunca acaba. Fumaça de areia.

Tanta gente, quanta gente, povo passa, tempo passa. E naquele banco já se meteram as mãos por dentro do vestido, das ancas, no encontro de corpo. Mão que não acaba. Dedo que não dá conta. De recosto no banco a bunda sorridente. E o tesão, a loucura, a juventude (que no espírito de quem quer mantém viva a si) ululando, o corpo tão somente – aparentemente – imóvel. Fora os assaltos, roubo. Por demais, o sentimento de pequeneza, não pode prestar depoimento. Não viu, seus olhos estavam perdidos, sua boca calada, seu sorriso contido. Aceita um litrin de pinga? Ói, que num ofereço mai. Barba mal feita, litro de cachaça por debaixo do braço. E fica tudo certo. Conheci sua cidade, Itabira. Bonita demais. A senhora do alto de seus sessenta anos respira. Patroa esperando, outro dia conversamos mais. Vai-se embora o rapaz de paletó nas costas. E tanta coisa mais, tanta coisa mais. Gente sem cama, sem comida. Nem liga de dividir o espaço do banco, lugarzinho pra deitar. Alguém vem e enxota. Mas até lá, nem incomoda, sorriso contido, o bronze olhando o infinito.

Pois bem que... Veja: pôr do sol. Sol de clave, perdido no céu. Cor de cenoura. Não, não. Cor de Rio. O dia ainda não terminou. Estrelas soltas no cristal negro, nuvens pairando, no quadrante infinito de qualquer lugar. “No mar estava escrita uma cidade...”. E Drummond só de rabo de olho, espiando tudo, no bronze. Pernas cruzadas e... Deus me tira o violão danado e arrasta Chuva. Mas não é de Durval Ferreira e Pedro Camargo. É composição própria, coisa divina. Mas depois, no hall dos espectros, Baden arrasta a outra Chuva. Lirismo comedido. Bem empregado, Drummond de pernas cruzadas, hora de o mar deitar na sereia do vento. E tudo isso em frente à Rua Rainha Elizabeth, no calçadão de Copacabana.

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