quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Os Irmãos

A ressaca de nada passou. Meus dedos apoiados no teclado, nada. O efeito das xícaras de café chegou ao fim. A caneca largada por cima do caderno, nada. Gotículas de suor escorrem da testa. Máquina de escrever enferrujada, mão estendida nas teclas. Respirando longamente a aspereza da madrugada, janela aberta, os mosquitos no frenesi do abandono entram em casa, picam os tornozelos, merda. E a dor dos infernos, que é mais um incômodo, torna-se coisa qualquer. Alguma coisa precisa ser purificada. Vomitada, posta pra fora. Em algum lugar ponteiros estreitam cliques indigentes e perdidos. Sem tiques e taques. Clique, outro segundo.

Nuvens cinzentas movimentam-se no céu escuro, estrelas mortas brilham furtivamente por detrás do celofane da escuridão. Volto à cadeira. Pernas cruzadas, o jeito é o retorno ao computador. Máquina de escrever afastada, caderno guardado, canetas na gaveta. Não, nada. Enfio o dedo na goela e não sai nada, nada. Nem uma palavra, um som, um acorde, uma vogal. Respiro profundamente, minutos passam. Horas passam. Volto à janela, o ar continua áspero. Ele não fere os pulmões, mas não é amigável. Meus pés pedem o contato com o nada, meus braços pedem o bater de asas. Os mosquitos cansaram dos tornozelos, concentram-se nos dedos.

A frustração não passa, aumenta. Sono, cansaço. Mas não, não posso e não consigo dormir. Deito mais uma vez, a terceira vez. Luzes apagadas, mundo semi-apagado. Fecho os olhos, mas não. Não durmo. Volto ao computador, abro todos os programas possíveis de edição de texto. Fecho um a um. Sobram o Word e o Bloco de Notas. No primeiro costumo escrever prosas, seja lá o que forem. No segundo, versos, poesias, seja lá quais forem. Olho para uma teia de aranha perdida no canto do quarto. A aspereza agora está nos meus pulmões. E como criado vida própria, não sai, não quer sair.

Forçar não adianta, digito um bando de coisas sem sentido. Decido ouvir alguma coisa. Alguma coisa torna-se muita coisa, várias coisas. Desisto, abro a janela mais uma vez, os grilos cantam alguma melodia incrível. Céu sem lua aparente. Saudades de uma lua cheia e imagino que algo brote disso. Nada, mais nada. Fecho os olhos e imagino estar cochilando, finalmente. Flutuo no nada, na aspereza que permeia meus pulmões e minha pele. Não, estou lúcido. Abro os olhos e percebo que nem um minuto havia se passado.

Sigo uma coruja em vôo rasante até o toco mais alto da cerca. O barulho de silêncio da madrugada permite que silhuetas dos sons sejam altamente distinguíveis. Me imagino em algum livro estranho, numa ficção nonsense. Imagino que a coruja me fala alguma coisa e que leio seus lábios. Não, não. Seu bico. Talvez alguma coisa nasça daí, talvez. Alice e Lewis Carroll talvez me salvem. A coruja não fala nada, só produz ruídos típicos. Seus grandes olhos amarelos olham o nada.

Volto ao computador, algumas horas se passaram. Fecho os olhos mais uma vez. Vou até a cozinha, abro uma long neck, bebo a cerveja incrivelmente gelada. Tenho vontade de contar ao mundo todo que aquela é a cerveja mais gelada do mundo. Mas diretamente, de dentro da minha cabeça. Duas de minhas personalidades interiores – como gosto de definir – me cutucam com um graveto. Um rapaz de vinte e poucos anos está encostado junto da janela, fumando e cantarolando uma música antiga. Não me sinto assustado, pelo contrário, fico feliz dessa companhia inesperada e estranha. Olho pra cadeira próxima à parede, atrás de mim. Uma garota, também de vinte e poucos anos está sentada. Vestido curto, pernas grandes, magra, magrinha. Seus longos cabelos descem suas costas, seus olhos de mesma cor que os meus me olham.

Ela cruza as pernas, as descruza, cruza mais uma vez, um sorriso malicioso. Ela me provoca dessa maneira, ou menos tenta. E consegue. Fico excitado, seus olhos ficam mais compenetrados, seu sorriso mais perverso e convidativo. Linda, lindíssima. Seu corpo delineado, seus seios são pequenos e redondos, suas curvas são perfeitas, seus traços são um tanto asiáticos. A reconheço finalmente. Putamerda mental. O rapaz junto à janela apaga o cigarro no parapeito e aproxima-se.

Abre a geladeira, pega duas long necks, me entrega uma. Não, eu havia errado. A cerveja que eu bebia não era a mais gelada do mundo. Está é. Ele me olha nos olhos, sorri e fala ‘eu sei’. Seus olhos são da mesma cor que os meus. Com seu jeitão de James Dean, acende outro cigarro e volta à janela. Como ele sabia o que eu estava pensando? Lucky guess, boy, ele rebateu. Com certeza era a fala de algum filme, mas eu não lembrava qual. Senti um arrepio, ela estava de pé, por trás de mim, respirando em minha nuca. E ele sorria, na janela, fumando e bebendo do outro exemplar da cerveja mais gelada do mundo.

Você me conhece, ela falou. Eu sei. Não, não sabe. Você até então não havia me visto, mas me conhece. Mas e essa forma humana? Essa forma é a forma que mais lhe agrada, atribuída a sua musa, por sem só. Você sentiu ciúmes? Senti, mas eu entendo e compreendo. Sei. E como você sabe, a dona da forma humana me é dona do amor também. Não entendi. O rapaz expirou uma grande quantidade de fumaça, apertou meu ombro, Ela e eu. Como assim? Ela e eu somos apaixonados e amamos loucamente você e a outra forma humana, a feminina.

De fato, eu reconhecia a garota, que tinha em realidade quase vinte anos. Mas não o rapaz, o garoto. Você ainda não me reconhece, não é? Não, não reconheço. Você ainda está me descobrindo, garoto. Como assim? Qualquer um de nós dois, irmãos, eu e ela, estamos aqui através de representações humanas. Mas você me conhece sim, só não essa forma humana. Segundo putamerda mental. Vejo que agora sabe quem eu sou. Exato. Ela me abraçou por trás e me beijou o pescoço, Finalmente. Antes mesmo que eu recordasse alguma coisa, ele me interrompeu Verdade, parecemos os personagens de The Dreamers, os irmãos. E era exatamente o que eu estava pensando e mal cheguei a concluir.

De quem é essa forma humana? Ele riu. Sou a forma humana das características mais marcantes. Eu não tenho nenhum traço de James Dean. Nem eu, você quem percebeu isso sem ao menos fosse realidade. Olhei em seus olhos e eles eram exatamente iguais aos meus, não só da mesma cor. Ela riu ao meu ouvido e sussurrou, “Terceiro putamerda mental”. Ela pegou a cerveja da minha mão, tomou um gole e sentou-se mais uma vez, rindo. Ele apagou o cigarro e sentou-se junto dela. E agora? Ambos deram as mãos. Insisti, E agora? Abra os olhos.

Mas eles já estão abertos! Riram maldosamente. Você é mais que isso, sabemos, então abra os olhos. Como assim? Veja, nosso pai nos mandou aqui e agora somos parte de você, te conhecemos, te entendemos, te sentimos, te amamos, e é recíproco. Quando você nos odeia, te odiamos, quando você nos ama, te amamos, mesmo que isso parta do seu subconsciente mais profundo. Falavam alternadamente, como fossem um só. Ambos são ninfas, eu sei disso. E como em diferenciação inútil de gênero, de qualquer forma, as personificações incumbidas por nosso pai e por você mesmo nos deram essas aparências personificáveis. Mas só agora vocês tornaram-se humanos. Mas eu sempre fui uma garota em todas as características que só você conhece, entende, sabe e ama. E eu, um rapaz, ou melhor, uma bicha em todas as características que só você conhece. Mas eu não divido muitas das características que vocês têm.

Ele respirou fundo, ela também. Verdade. Você não é orgulhoso, ou gay, ou egoísta, ou autoritário ou muitas das coisas que nós dois somos. Então não entendo. Temos existência própria, somos ninfas, sem sexo, desde que descendemos de Zeus. E ele? Ele descendeu de alguma outra coisa, ou não, isso não sabemos. Mas por que eu? Abra os olhos. Por que eu? Abra os olhos. Por q... Abra. Percebi que a resposta estaria diante de mim. E finalmente abri os olhos. Deparei com o computador, três páginas escritas, meu corpo purificado e minha alma lavada. E o ciclo havia se completado por onde começou, como o Ouroboros que engole sua própria cauda: sem começo e sem fim.

O sol nascia pela fresta da janela, meus pulmões respiravam sutilmente. E a garota, a Poesia, e o garoto, Prosa, riram deliciosamente do alto de seus camarotes.

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