Como de todas as outras vezes, como de todas as outras noites, como de todas as outras estrelas e idéias. Alguns carros raspavam borracha, feito lixa no horizonte silencioso das ruas, que só as escuto e não as preciso enxergar. De olhos fechados, o mapa de algumas constelações está diante de minhas pálpebras obscuras. Ônibus e caminhões de lixo passam ranzinzas na rua, chacoalhando metal moldado como desejasse a existência de metal retorcido. As nuvens permanecem austeras e, cinicamente, são meras observadoras. Não, são mais. São contra-regras responsáveis por efeitos adversos, chuva. Chuva? Um inseto d’água aloja suas asas de hidrogênio no meu nariz. Observo outros de sua espécie em mergulho profundo contra tudo de profano que há desde arranha-céus às avenidas, meus olhos estão instintivamente abertos.
Respiro profundamente, sim, Chuva. Fecho os olhos mais uma vez. A fumaça do cigarro entre meus dedos desenha uma galáxia perdida na quase atmosfera que me permeia. Respiro profundamente, sim, Chuva. Os pequenos insetos d’água cresceram, estão maiores, mais fortes, mais pesados. Trago até o limbo do filtro do cigarro. Tusso de forma sutil. Esmago seu delicado corpo de papel e cinzas no parapeito da janela, espremendo sua espinha dorsal contra a pedra fria, os insetos de asas translúcidas caminham por meu rosto. Tenho de ir embora, falo a mim mesmo, e agora, insistente, firme, persistente. Finalmente expiro a fumaça refugiada em meus pulmões. Olhos abertos.
A chuva pára. A garoa pára, em termos de exatidão. Como embriagados, meus olhos vagam feito cigarras sonâmbulas na palidez da lua. Lua. Sem pudor, sem vergonhas, de orgulho em proa e mantendo firme a expressão de luz que em si retrai, surge. Lua. A escuridão da noite resplandece em porcelana obscura lunar, os reflexos pálidos e fronteiriços, os terraços molhados e as crateras de emboscada, o dragão prepara sua armadilha enquanto Jorge aperta firme em mãos sua lança de silêncio. O vento surge, chama meu nome.
Chama todos os nomes, curvo a cabeça e lhe cumprimento. Um barquinho de um rio por perto, não o vejo. Não os vejo, rio ou barco, ou pecados, ou pescadores, ou pecadores. E mesmo não existindo rio, barco e pecados naquele mundo, ouvi um homem chamando o vento. Dorival Caymmi. O assobio corta a mudez de vida que goza em morte. Vamos chamar o vento. Assobio, olhos fechados, o pescador imita o pecador, assobia também. Não acredito em pecados. E eles não acreditam em mim. O vento passa por mim, cumprimenta, agradece, vento que dá na vela, vela que leva o barco, barco que leva a gente. O dragão sorri por detrás das crateras. Tenho de ir embora.
Olho, finalmente, para trás. Estendido numa cama, no oceano de lençóis, marolas estampas e fronhas brancas de espuma praiana, um corpo nu suspira vida. De nádegas descobertas, de costas à mostra, de nuca pálida. A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Escorro lentamente da parede ao chão, rente à superfície pálida. Observo o corpo perdido em trevas. Linda, lindíssima. Não, nunca, nenhuma, qualquer, fora uma transa absorta, uma trepada qualquer. Os ecos de seus gemidos misturados com meus suspiros ainda ressonavam nos pedaços do quarto. Respiro profundamente. Tarde demais, tenho mesmo de ir embora.
Como viajante, estabelecida regra, eis que em doutrina individual e interminável, teria de segui-la. Penar por suas entranhas de sussurro, calar no ventre de sua mortalha de luz. Procurei por minhas roupas, ri em silêncio da provável vida própria que as peças adquiriram: seus tecidos não mais tão têxteis e tão mais celulares. E cada torque de linha remediada no silêncio do voyeurismo imaginário. Sorri. Por algum efeito magnético, o corpo nu verteu vida e escapou dos bruços, e agora em decúbito dorsal, dois cumes seios apresentavam-se á palidez da lua. Os bicos esculpidos e de vida própria, a barriga de curva nas margens mananciais de um rio escondido. E como acompanhando a trilha feminina do absurdo incrédulo da positividade, dei por certo, Deus existe. Ri de mim, dos pensamentos e da credibilidade – verídica – de meus novos argumentos. Converteria ateus ao endeusamento pleno do místico, ao lhes mostrar aquele corpo nu. E os homossexuais, os heterossexuais, os frígidos, as frígidas, os desacreditados, todos, diante do frenesi bíblico-sexual de epiderme.
Por entre aquelas pernas, dos lábios de segredos de palavras reduzidas e significantes, jaziam entrelinhas de entrededos. A pequenina castanha, gulosa de ser tocada. A sensação incrível de penetrar, de profanar, de transtornar os mares e desmembrar cardinalmente as intenções do corpo. E eu sorria de loucura. Loucura saudável, veneno-remédio da redenção da carne. Vesti-me, peça por peça, sangrando arrependimento e coagulando força de vontade. Cobri o corpo com as arestas inverossímeis dos lençóis, beijei-lhe a testa, um sorriso brotou de seus lábios adormecidos, encolheu. Tenho de ir embora. E fui.
Fechei a porta, tranquei por fora com minhas chaves, cópias. Preferi as escadas, estiquei as pernas, redirecionei os ossos, estalei as vértebras como gato fugidio. Entreguei a chave ao porteiro, Boa noite, bom serviço e obrigado. Caminhei até a esquina, acendi outro cigarro, sentei no meio fio. Celular em mãos, fora do bolso, apaguei o número da lista de contatos. Aquele número, aquelas noites, aquele corpo nu e abandonado. E eu estava apaixonado por ela. Guardei o aparelho, procurei as chaves de casa, bolso esquerdo. Procurei as chaves do carro, fundo do mesmo bolso. Levantei. Andei por alguns metros, desovei o corpo do cigarro no meio da rua, entrei no carro. Repassei a doutrina, em palavras douradas e ardentes, em minha cabeça, como tatuagem de fogo de nenhum vestígio na pele.
Quando com uma mulher, fico com ela. Mas então, ao me apaixonar, respirei profundamente e completei a lacuna mental em voz baixa, Tenho de ir embora. E um inseto de suas asas de hidrogênio pousou em minha frente, no vidro do carro. Como de todas as outras vezes, como de todas as outras noites, como de todas as outras estrelas e idéias. E começou a chover.
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