Estava chovendo. Ainda estava chovendo, mas eram apenas cicatrizes torrenciais da forte tempestade de alguns minutos antes. Não precisava ligar a TV ou o rádio pra saber do transbordamento de algum rio, algum barranco que cedeu levando barracos junto ou qualquer desgraça afim. Eu estava acocorado no meu mundinho. Ou melhor, sentado, com as pernas esticadas sobre a cama, as costas recostadas na parede, luzes apagadas. Observava a chuva tropeçando contra a janela e observava as pessoas, carros, guarda-chuvas, galochas, capas, casacos. Quando os táxis lotados estacionavam no quase subir do meio-fio, revolviam quantidades surpreendentes d’água às calçadas.
Passageiros saiam correndo, o último a ficar pagava o táxi com a soma de todos e saía encoberto por alguém que o esperava. Uma mulher corria descalça, com os desconfortáveis saltos em mão, rindo sozinha e embriagada, até algum lugar a salvo da chuva. Um mendigo enrolava-se confortavelmente em metros de lona de caminhão rasgada. Gatos amontoavam-se, encolhidos, em caixas de papelão. Um cachorro manco tremia caminhando pela calçada encharcada. E eu estava acocorado no meu mundinho, de espectador, como fosse um leitor do livro daquela noite. Daquelas pessoas, dos outros animais, da chuva, das cobras feitas d’água, que se contorciam e irrompiam em diversos pedaços enquanto escorregavam pela janela.
Alguns relâmpagos espalhavam-se sem muita firmeza, os deuses tiravam fotos torrenciais de todos os seres humanos. E os flashes propagavam por todo o céu. As ruas tinham estado de doce enjoado, pirulito lambido até a metade, filme muito longo e becos parisienses lotados de prostitutas da revolução francesa. O ritmo das gotas e do vento me sussurrava I Don’t Know Where I Stand. As gotas mínimas e suicidas eram a introdução do violão, o vento que uivava era a voz sobrenatural e sincera que outorgava as cores dos outdoors e carros amarelos, vermelhos e até mesmo dos brancos. Não havia cores, apenas Joni Mitchell. Cantarolei de um jeito enjoado.
Dobrei os joelhos, apoiei os braços nos joelhos, um esticado e o outro flexionado servindo de apoio à cabeça. Minha respiração deixava vestígios no vidro frio, esbranquiçava o caminho das cobras feitas d’água e acocorado no meu mundinho, eu desenhava círculos nos rastros dos meus pulmões. Ouvi alguns cliques, a maçaneta girou e a porta abriu. Porra, no escuro? Ouço as chaves e o chaveiro chocando-se contra a mesinha perto da porta. Não acende a luz, não. Meu colega de quarto largou o casaco pesado num descanso e acendeu um cigarro. Certo, certo, mas que merda é essa? E eu estava desenhando os arcos olímpicos no vidro.
Você não ia sair com tua noiva? Ia. E era uma surpresa, uma porra louca dessas. Ia. Certo, deixa de responder assim e me conta o que houve. Puxando o cinzeiro pra perto, bateu as cinzas, que houve? Ah, deu em merda. Como assim? Uma longa tragada. Não tínhamos problemas nenhum, eu e meu colega de quarto. Quem não nos conhecesse, ao saber da situação, imaginaria que somos irmãos ou namorados. Eu estava no penúltimo ano da faculdade, ele também. Eu namorava uma garota, amiga de infância, por mais de quatro anos, éramos noivos fazia um mês. E ele era a bicha mais bonita do mundo. As mulheres derretiam a seus pés, e seus enormes olhos azuis só estavam interessados em outros homens. A maior decepção das mulheres da cidade, com certeza.
Era extremamente independente, forte e maduro. Até que alguém dissesse por a + b, ou que ele mesmo revelasse, ninguém acreditaria na homossexualidade desse cara. E éramos sim, como imaginavam, irmãos. Tornamos-nos grandes amigos e então, irmãos. E, sempre, ele foi o irmão mais velho. Nunca desrespeitamos um ao outro, desde o começo. E seu amor e carinho de irmão eram idênticos aos meus. E naquele exato momento, ele me fitava com aqueles enormes olhos azuis. Seu tipo lembrava o de um Kerouac moderno. Seu rosto forte, suas expressões alinhadas e aninhadas. E do escuro, aquelas bolas de gude azuis me fitavam e eu o olhava de canto de olho. Ele colocou o cigarro na boca, livrou-se dos sapatos, recolheu o cigarro, bateu as cinzas, cruzou as pernas. Não vou te bajular pra que conte, você vai contar de qualquer maneira e sabe disso. O viado aqui sou eu e nunca fiquei com viadagem.
Respirei fundo. Ele sabia, desde o começo, que o que precisava para que eu abrisse a boca, seria uma frase de impacto. Ou algo mais pra um tapa na cara, mais direto e conciso. Ela simplesmente acabou tudo. Arregalou os já enormes olhos azuis, enterrou o cigarro em seu túmulo de cinzas, retirou dois da carteira. Acendeu os dois, um na boca. Toma. Finalmente virei, segurei o cigarro e olhei seu rosto por alguns segundos. Toma. Tomei o cigarro entre os dedos, levei a boca e inspirei profundamente. Agora conta essa merda direito. Abri um canto da janela e baforei a fumaça cinza e fantasmagórica que fugia das gotas. Ela catou tudo que tinha e se mandou com aquele amigo dela, que eu sempre tive ciúme. Porra! Pois é. Ele havia recostado na cadeira na qual estava sentado. O encosto rangeu de leve. E eu que sempre dizia que essa merda não tinha sentido.
Lembrei dos seus sermões em um momento. Porra, agora vendo bem, você tinha total razão. Agora?! É, é muita merda acreditar quando é realidade, mas me referi aos fatos passados. Entendi. Ambos tragamos os cigarros. Contei tudo, contei como ela estava maravilhosamente linda, como seus olhos estavam abismados de alegria e ao mesmo tempo tristeza. Aquela era uma aventura, algo novo, uma paixão. E eu era o amor. Você era o amorno. Péssima escolha de palavras. Me dá crédito, to tentando te animar. Acabei o cigarro e afundei seus restos mortais no parapeito molhado. Merda, que mais? Ah, ela explicou tudo, disse que queria ser feliz e que eu fosse também. Que merda. E foi sincera em tudo, inclusive nos olhos. E eu observava aqueles enormes olhos azuis, comovidos, sinceramente comovidos e chateados.
Assassinando o cigarro no cinzeiro, ele se sentou na cama. Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto machucando a pele fria. Solucei de forma imperceptível. Esquece essa merda, ta? Não dá. Eu sei, mas é preciso. Olhei seus olhos entristecidos. Que eram nada mais que o reflexo dos meus. Encostei a cabeça em seu ombro e chorei feito criança. Acendendo outro cigarro com uma das mãos, segurou minha nuca com a outra. Afagou meus cabelos e me falou como tudo aquilo era uma merda. Não preciso do óbvio. Nem eu, apertando minha cabeça com força contra seu ombro. E mais lágrimas escorreram. O que aconteceu com seu namorado? Ah, eu terminei. Por que? Vi um lado dele que não conhecia. Que merda. Mas estou bem. Como? Ele acendeu um cigarro e me entregou. Recompus-me e recostei na parede mais uma vez.
Não sei ao certo, mas faltava algo. O que? Paixão. Como você consegue se apiedar comigo e chamar minha ex-noiva de vaca, se fez a mesma coisa que ela? Querer paixão não é pecado, mas abandonar uma pessoa é uma merda, ela sabe disso. Por que a chamou de vaca? Porque ela fez isso com você. Não sou diferente de outra pessoa... E além do mais, por que a piedade? Porque do mesmo jeito que a entendo e não a julgo por isso, sei que você não merecia isso. Ninguém merece isso. Eu sei. POR QUE VOCÊ FEZ, ENTÃO? Porque eu sou uma vaca. COMO ASSIM? Tragando calmamente o cigarro, ele me olhava com seus grandes olhos azuis. Toda aquela situação parecia surreal, e em meio de um cenário preto e branco, seus olhos azuis eram as únicas coisas coloridas. Não, mais-que-coloridas, eram profundamente vivas. Me acalmei. Mais calmo agora, imagino. Quem mais sente com tudo isso não é você ou meu ex-namorado.
Traguei o cigarro. Quem é? Sou eu e a outra pobre vaca. Por quê? Ele me apontou o próprio cigarro, tragou com força até que a chama apagasse e depois afundou os restos mortais no cinzeiro. Expirou lentamente a fumaça. O cigarro acabou, a fumaça se desfez, a chama queimou por completo. E? E eu continuo respirando. E uma lágrima pesada desceu por um de seus gigantescos olhos azuis. E eu finalmente entendi.
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