domingo, 21 de fevereiro de 2010

Canto de Orfeu (ler acompanhado de Valsa de Eurídice - por Baden Powell & Vinícius de Moraes)

E é quando eu convoco
o silêncio a ouvir meu corpo

e o vazio a sentir meu rosto

perder os membros estirados
numa maré de loucura
e estranheza...

Saciar a inércia na falta
e os ecos nas profundezas;

Fingir de pretas mangas
primavera nua de pele fria
e perder o rumo incerto

na profunda incerteza
de se desejar macia;

na insuportável cegueira,
de luz e trevas, que dança,

que arde, que ama.

E é quando eu invoco
o paganismo tão adorado

e a piedade do único deus

que despeja a débil companhia
da mortalha irremediável
de fome perdida...

E então, inundando de agonia
a falha cruel da realidade;

Desprezar dos ponteiros afiados
e o corte que abre da carne dócil
a perder o rumo incerto

na profunda incerteza
de não possuí-la,

tempestades de tantas coisas
que varrem a vida...

Não havendo sóis
e nem manhã de cada dia,
Orfeu, acaba de ser

e esvai em constelação fria.
Orfeu, Orfeu

e desaba o céu
na loucura de tristeza
que instala no peito dos deuses

e despedaça na alma do homem

Orfeu, Orfeu.

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