[continuação...]
Dormi pelo resto da tarde até que o gato me acordasse. Minha pele já tinha certa resistência contra suas garras e já não me deixavam marcas nas costas. Exceção de quando ele fazia com uma dose controlada de sadismo e maldade, enfiando até que os pêlos de suas patas ficassem completamente rentes à minha pele e puxando devagar pra baixo. Normalmente é quando durmo demais e não lhe dou comida. Mas esse tipo de dor já se tornou um costume estranho e se esvai e some depois de uns minutos.
Enchi mais uma vez a vasilha com ração e completei a água até a borda.
- Vai sair hoje?
- Vou sim.
- Estava precisando, já não agüentava ver você trabalhando até tarde ou acordando de madrugada pra fazer alguma coisa e aparecer na minha frente com essa cara cheia de olheiras repugnantes.
- Bom saber, gato.
- Me assusta.
- Você se preocupa tanto assim?
- Também. Mas me assusta mesmo, você fica mais feio ainda.
Virou de barriga pra cima e eu ri. Fiz carinho até que ele ronronasse de satisfação e me liberasse de minha função pela noite. Não de dono. De amigo.
Jantei e liguei avisando que iria. Tomei um necessário banho demorado e vesti um dos meus jeans mais confortáveis enquanto escovava os dentes. Calcei o velho par de tênis escuros e vesti uma camiseta azul escura e uma camisa preta, aberta, por cima. Abotoei no primeiro dos botões do pulso, peguei as chaves do carro e saí. Tentei não fumar até que pelo menos chegasse, mas uma hora e quarenta minutos de trânsito me fizeram mudar de idéia. Depois descobri que outros dois amigos também se atrasaram. Era um acidente, nada de tão grave, mas essas coisas sempre atraem atenção dos curiosos que não têm muito que fazer. Despretensiosamente puxei um cigarro pro canto da boca e o mantive apagado por algum tempo. Liguei o rádio e ouvi uma versão de I Remember You, do Skid Row, feita por uma banda praticamente desconhecida, vocal feminino, um piano e violões ao fundo. Não que eu não gostasse da versão original, mas aquela era substancialmente mais bonita e melhor trabalhada. Acendi o cigarro e murmurei a música batendo com os dedos no volante e assim que os carros começaram a andar, coloquei uma bala terrível na boca e joguei o cigarro fora.
Todos falaram um pouco de seus trabalhos e da certa inveja que sentiam por mim. Nunca consegui falar de trabalho do mesmo jeito que as outras pessoas. Concordo, sorrio um pouco e bebo silenciosamente até que mudem de assunto. São velhos amigos, um deles é um desses conquistadores voláteis e estava com uma garota nova. Provavelmente se sentiria realmente sozinho se não tivesse outras pessoas ao seu redor. Mais dois casais, um deles noivo (Augusto e Marina) e o outro (Rômulo e Tereza) há pouco juntos. E outro, Beto, solteiro como eu pra completar. Não que fizesse diferença, ele era um dos meus amigos mais antigos. E gay desde os quatorze anos, mas mais macho que muito homem que anda por aí. Já o vi dando uma surra num garoto que levantou a voz pra chamá-lo de bicha. Isso raramente acontece, mas quando acontece é um espetáculo à parte, já que o sujeito é faixa preta em karatê e judô. Fora que compartilha comigo o mesmo gosto por cigarros e eu acabo filando dois ou três sempre que saímos. Queriam me arranjar uma garota, conhecida de todo mundo. Sempre diziam que eu parecia muito sozinho, que deveria arrumar alguém. E o Beto sempre dizia que esse lance de morar com gato era muito clichê de boiola enrustido.
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"E o Beto sempre dizia que esse lance de morar com gato era muito clichê de boiola enrustido."
ResponderExcluirme arrancou uma gargalhada escandalosa!!!