Abriu lentamente os olhos, livrando-se da visão embaçada pós-sono. Constatou, através da janela entreaberta, que era dia: fios dourados esgueiravam por dentro do quarto, revelando as milhões partículas de poeira. Esticou-se, ergueu seu corpo do leito, alongou seus braços, fazendo ecoar o estalo das articulações ainda dormentes. Seu colega de quarto ainda estava mergulhado num tipo de hibernação, que dava indícios de acabar bem depois do almoço. Festa na noite anterior, claro.
Às vezes sentia vontade de juntar-se ao colega, mas no fim das contas, desistia. Não havia, desde sua mudança até aquele local, saído do quarto. Simplesmente não se sentia a vontade. Na realidade, havia perdido longas noites pensando sobre aquilo. De certa forma, sim, lhe incomodava. Mas não fazia falta em sua vida. Tinha tudo o que precisava ali, ao alcance de seus braços. Fora a necessidade de mudar de posição durante a faxina, ficava quase que no mesmo local, trabalhando incessantemente. Comia ali mesmo. Recebia seu alimento, no que pode ser chamado de um “serviço em domicílio”. Nutria-se bem, no fim das contas, afinal detestava comer besteiras.
Recebia visitas periodicamente. Poucas, mas as recebia. Em sua vida – não muito longa e não muito agitada – só manteve um relacionamento considerado, ponderava, “sério”. Não gostava de comentar nada sobre aquilo, desde o acidente que havia provocado a morte de sua namorada. Quando, em sua mente, surgiam vagas lembranças de tudo aquilo, ocupava-se mais e mais com seu trabalho. Seu trabalho para muitos era inútil. Para outros desagradável e alguns achavam que era arte. Não dava importância pra nada do que se falava. Ou de bem ou de mal, simplesmente ignorava e, sem reluto ou procrastinação, continuava o serviço.
Extremamente perfeccionista. Era comum em sua família – com quem nunca teve muito contato. Era um dos mais novos de muitos irmãos, que desde a adolescência não se viam. Seu pai morreu muito cedo. Antes mesmo de que ele ou qualquer irmão nascesse. Na verdade, não ligava muito pra nada disso. Concentrava-se friamente em seu trabalho, até que finalmente desse resultado. Havendo falhas, desfazia por completo cada uma das infindas partes, nas quais gastou horas preciosas fazendo. Não se importava. O que pretendia, mesmo, era atingir a perfeição em sua atividade diária.
Dormia pouco e comia muito. Mesmo assim tinha um físico um tanto invejável. Sua flexibilidade e agilidade eram surpreendentes. Sabia defender-se. Não gostava de brigas ou qualquer tipo de violência. Em face de qualquer perigo, não demonstrava vergonha alguma de abster-se a um canto distante. Resolvia seus problemas de maneira prática e metódica. Mas, refletia profundamente sobre aquilo.
O que haveria de tão complicado na vida de uma aranha doméstica?
Maldito, infeliz! Como você me vem com uma aranha no final? xDDDD
ResponderExcluirOrgulho de você :****