terça-feira, 7 de julho de 2009

Soldado

Os trilhos cantavam metalicamente ao contato das várias rodas do trem. Era fim de tarde, pôr-do-sol no horizonte, nuvens diurnas indo embora e, vagarosa, uma noite exatamente igual a todas as outras noites aproximava-se. Pra ser exato, fim de tarde do dia 22 de agosto de 1945. Vinha no vagão nº 4, que embora fosse um vagão destinado aos civis, lhe agradava por certa distinção. A viagem estava no fim. E já era tempo, depois de tantas noites naquele trem, percorrendo um longo caminho até que estivesse em casa. Casa. O que realmente seria sua casa? Deixou de pensar besteiras, apoiou-se com o cotovelo e dormiu por um tempo.

Acordou repentinamente, no meio da noite, ofegante e suado. Mais uma vez aquele pesadelo. Podia rever mentalmente cada cena daquilo, que na verdade, eram lembranças. Homens feridos, mortos, enlameados, arrastando-se pelo chão. Muitos só continuavam por puro instinto. Foi aquele tipo de motivação que o tornou um soldado exemplar. Havia sido condecorado em diversas oportunidades, nos diversos países por onde passara. Ao menos, pensava, não terei mais de me preocupar. O maldito Hitler estourou os miolos, então não teria de passar por nada assim de novo. Não conseguia esquecer nenhum dos momentos da guerra. Perdeu companheiros, amigos e um dos dedos. Contou mentalmente os anos que esteve fora de casa.

Sofria, assim como tantos outros soldados das mais diversas partes, de nostalgia. Lembrou de algo que havia lido sobre a Guerra Civil Americana. Sobre soldados que foram diagnosticados tarde demais. Lembrou de seu amigo italiano, que havia enlouquecido gradativamente. Conseguia manter-se firme com lembranças de sua cidade natal. O cheiro doce do ar, os grandes rios negros que corriam indefinidamente e os vastos campos na primavera. Lutava talvez, por uma chance de ver tudo aquilo. Sentir, cheirar, tocar e viver tudo aquilo, mais uma vez.

Tempos difíceis os que antecediam a guerra. Sua esposa morreu em trabalho de parto, com grave hemorragia, seguida de seu filho, que entrou em contato com o mundo por alguns minutos, antes que partisse. Dizia que o filho tinha a curiosidade de ver seu rosto. Tentava animar-se, mas nada realmente o agradava. Foi obrigado a lutar na guerra. Seus pais estavam mortos, sua esposa e seu filho também. Nada o salvaria do alistamento e convocação obrigatória. Inicialmente sentiu-se mal. Nunca havia dado real importância ao que estava acontecendo no mundo.

Agora estava de volta. Ou ao menos, regressando. Aos poucos reconhecia nuances na paisagem. Tudo havia mudado muito. O ar tinha um cheiro espesso de fumaça. Os rios estavam cheios de dejetos e restos de embarcações. Aproximava-se dos antigos campos. Soube que uma divisão do exército havia invadido a região para tirá-la do controle do exército alemão. O que não sabia era o quanto o domínio daquela área havia a afetado. A grama alta e as flores amarelas não estavam mais lá. Só havia um longo campo cinza de torres em destroços, arame farpado e flores mortas. Umas empilhadas, outras expeliam vida em carvão, com os resquícios da fumaça no céu cinza.

Desceu na estação. Caminhou lentamente, estalando com seu coturno no chão, passo a passo. Percebeu que sua casa estava do mesmo jeito que havia deixado e, apesar da visão caótica do resto, seu lar, que era afastado da cidade, estava intocado. Um fino fio d’água passava por seu quintal. Flores nasciam à borda e, o sol se punha por detrás de nuvens tímidas, que corriam em seu telhado. Entrou em casa, livrou-se das roupas, tomou um longo banho e foi deitar-se. Mas por algum motivo não conseguia dormir. Não conseguia simplesmente deitar-se ali como se nada tivesse acontecido.

Percebeu que aquele não era mais seu lar. Não se sentia à vontade ouvindo o zumbido dos insetos passando perto da janela, ou do vento roçando na cortina. Sentia-se deslocado. E antes que pudesse sequer refletir sobre o assunto, conseguiu entender. Estava com nostalgia daquilo que realmente pode acostumar-se enfim: a morte.

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