quinta-feira, 23 de julho de 2009

Missão Pelourinho

A operação em si, seria simples. Ao menos na teoria. Assim pensava o comandante, que recebera as ordens há poucos minutos. Mandou convocar seu pelotão com urgência extrema. O presidente estrangeiro estava no hotel, descansando, quando a força tarefa policial foi convocada. Ordens diretas e estritas do governador em pessoa, dizia-se. Mas que diabos, faria o governador convocar uma força tarefa, às tantas da madrugada? pensavam alguns membros que mantinham um estado de semi-consciência. Todos a postos, totalmente acordados ou não, as ordens foram dadas.

Imediatamente quem não havia acordado, padeceu sob o efeito daquilo. Um balde de água fria? Não, algo um pouco mais estranho. As ordens foram repetidas uma, duas, três vezes. Da primeira vez, alguns achavam que era um tipo de piada de mau gosto e riram. Toledo, comandante daquele pelotão, manteve-se sério durante toda a explicação. Contou a todos o motivo de todo aquele alvoroço: a chegada do presidente estrangeiro, que depois de visitar três países africanos, estava ali para conhecer o Pelourinho.

Nenhuma pergunta? Ótimo. Adiantaram-se no serviço. De certo, repetir o que havia acontecido no ano passado, quando a secretária estrangeira havia visitado o Pelourinho, não estava de forma alguma nos planos. Seria um vexame internacional, comentava Toledo com seus homens. E aquelas eram palavras do próprio governador. Fazer o quê? Simplesmente respeitar as ordens e cumprir o serviço o mais rápido possível, voltar pra casar e tentar a sorte com um cochilo rápido.

Muitos dos oficiais não se sentiam à vontade ao realizar aquela ordem. Mas, missão é missão, concordavam. A ordem era clara e direta: limpar as ruas, calçadas, avenidas, vielas e qualquer tipo de acesso possível do Pelourinho, no Pelourinho, ao Pelourinho ou que lembrasse o Pelourinho. Recolher todos os bêbados, marinheiros, vagabundos, mães e pais-de-santo, prostitutas, mendigos, trançadeiras, vendedores ambulantes e, até as baianas do acarajé. Roque teve de inventar uma desculpa, fingir que estava passando mal. Não teria coragem pra negar o trabalho a sua mãe, vendedora conhecidíssima de acarajé daquelas bandas. Plínio conseguiu trocar com Augusto a tarefa de expulsar as prostitutas. Não faria aquilo com Doralice. Fora alguns percalços, tudo correu como planejado.

Duas baianas jogaram pimenta nos oficiais, um dos mendigos desmaiou de fome enquanto saía do local, uma mãe-de-santo recebeu uma entidade que deu trabalho até ser contida por três homens, fora outros probleminhas. Então, com o tempo, tudo estava na mais perfeita paz – ou não. O vento, não reconhecia mais o Pelourinho. Nem a lua, nem as estrelas, muito menos a noite e, muito menos o sol, que espiava de longe. O mar então: estranhou completamente aquele pedaço, visto de longe, por umas beiradas de onda. Mas não havia o que se fazer. Em poucas horas, o presidente e sua comitiva chegariam ali.

Contrataram uma carioca pra se vestir de baiana e cumprimentar o visitante. Limparam com tanta força as construções, que a tinta carcomida desintegrou-se mais ainda. Não havia capoeira, nem barulho dos pontos de terreiro, nem marujos voltando de alto-mar ou qualquer coisa do tipo. Não poderia ficar barato. E não ficou: a chuva fez greve e não apareceu. O sol, pra mostrar-se descontente, apareceu emburrado no alto do céu. As nuvens fugiram até o horizonte e o mar estava mais estranho que nunca. 31º C de um calor mais do que infernal, na greve de tudo que contornava a Bahia.

Visita terminada, o presidente esgueirou-se ao ouvido de um dos tradutores. O tradutor correu até um dos guias brasileiros. O que ele disse? O que ele disse? Bem, ele perguntou onde poderia tomar uma pinga, comer acarajé e levar uma defumada de um caboclo.

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